domingo, 30 de junho de 2013

Sobre o solstício de inverno na política brasileira.

Detalhe de Pitagóricos celebrando o nascer do sol 
 (Bronnikov, 1869). Assim como o Sol renasceu, que
aconteça o mesmo com nossas esperanças de um país
melhor. 
De modo geral, uma concepção simples e comumente aceita dentro do neo-paganismo é a de que os rituais que celebram as mudanças da natureza, tais como as fases da lua, as estações do ano ou a mudança das marés são, na verdade, uma forma de fazer com que possamos nos “ressintonizar” com os constantes fluxos de mudanças e transformações do Universo. Quando se celebra o verão, homenageia-se a fertilidade, a prosperidade, a energia e o calor: das plantas, dos animais selvagens e também das diferentes esferas da vida humana: emocional, intelectual, espiritual etc. O mesmo com os ritos de inverno, de lua crescente ou minguante etc. Aqui o Homem é uma extensão da Natura. O que acontece fora, também acontece dentro. É a noção de Micro e Macrocosmo.


Há poucos dias passamos pelo solstício de inverno. Nas tradições wiccanas é celebrado Yule, o nascimento do Deus. Ou, então, os ciclos de vida e morte, vitória e derrota dos reis do Azevinho e do Carvalho, mais especificamente quando o primeiro, Deus do Ano Minguante cede lugar ao segundo, o Rei do Carvalho, Deus do Ano Crescente. De qualquer forma, o que é celebrado nesse momento da Roda é o renascimento, a esperança, o nascimento da Criança da Promessa que traz Luz ao mundo – algo como o que é celebrado pelos cristãos no Natal. É a época de plantar, de começar e de impulsionar. Fiat lux para um novo Universo.


E se isso acontece dentro dos nossos círculos, é evidente que fora deles algo semelhante também ocorre. Estamos passando por um período de interessantes transformações e “nascimentos” na esfera política do nosso país. Está sendo dito que um “Gigante” acordou, estamos vivendo uma rotina de manifestações públicas nas ruas e de debates políticos nas redes sociais. O povo está começando a se sensibilizar por questões políticas importantes e saindo de casa para lutar pelos seus direitos. O que não é só importante, mas é justo, urgente e necessário. São desejos, aspirações e motivações de mudanças e de libertação tipicamente invernais.

Mudanças todos queremos. Mas quais mudanças exatamente? 
Ainda assim, nesse sentido, é importante refletirmos sobre algumas questões. Ora, assim como a bruxa ou o bruxo são levados ou arrastados pelas marés da natureza, em determinados momentos eles também podem ser dotados do poder e da habilidade de se não dirigir os fluxos naturais, ao menos direcioná-los para fins específicos. Não podemos, ao menos como ocultistas, de esquecer disso.

Observando as manifestações que estão ocorrendo, vejo muitas pessoas lutando pelo “fim da corrupção”. Como se houvesse alguém que fosse a favor, deliberadamente, dela. Ou então pessoas com cartazes clamando por uma “mudança política” no nosso sistema, como se isso não fosse um tanto quanto, no mínimo, abstrato. Não que isso seja errado – mas dizer que é “contra a corrupção” sem saber defender, por exemplo, a instituição da corrupção como crime hediondo, não é o suficiente. O mesmo para a “reforma política”. Muitas podem ser as reformas políticas: a institucionalização de uma ditadura militar, por exemplo, é um tipo de reforma política. É disso que falam? Prefiro crer que a grande maioria não. Muitos sabem o que não querem, mas não sabem propor, exatamente, o que desejam colocar no lugar.

O Sol, de Waite-Smith. Esse é
o nosso guia nesse momento.
Que a justiça venha cavalgando
a passos ligeiros. 
Utilizei-me de apenas dois exemplos. O que eu quero dizer com isso é que não podemos lutar por coisas abstratas: fim da corrupção, reformas políticas, melhorias na educação, na saúde e na segurança todos querem. Mas nós, sejamos pagãos, bruxos, ocultistas ou pessoas “normais” – atenção para as aspas – na posição de cidadãos não só podemos mas também devemos estudar, refletir e repensar nossa vida pública para saber o que, exatamente, queremos exigir. Sem desejos abstratos, impalpáveis, genéricos. Esse tipo de discurso já vemos nas campanhas políticas de dois em dois anos no país.

Pra finalizar: assim como nas práticas de feitiçaria devemos saber exatamente o que queremos para que o Desejo possa se manifestar, na vida pública a mesma coisa. Que não sejamos só arrastados pela maré de mudança. Que saibamos, como cidadãos, guiar essa maré para transformações dignas, efetivas, coerentes e verdadeiras. Não sejamos massa de manobra. Que com a ajuda dos nossos Deuses e ancestrais possamos criar uma nova realidade. Assim como o sol invernal lentamente se ergue das brumas do frio, que nossas esperanças de um pais mais justo e igualitário também se erga dessa forma. Que esse Gigante que acordou não seja como os Ciclopes cegos de Odisseu. Pois caso seja, terá o mesmo fim: ou o sono ou a morte. 

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Um comentário:

Filha das Brumas disse...

Brilhante Diannus!!!

Os deuses lhe presentearam com um lindo dom, o da escrita. E felicito-o por isso.
Totalmente inspirador...

Abençoado seja!

Abraços,

Filha das Brumas