sábado, 28 de setembro de 2013

A Bruxa como artesã da sua vida.

Circe oferecendo uma taça a Ulisses, de
Waterhouse. Detalhe no bastão e na taça
que a feiticeira segura.
Há algumas semanas eu venho meditando sobre algo que, agora percebo, esperou o sabá de Ostara para se fazer claro na minha mente: sobre a atuação da bruxa como um ser independente, pró-ativo, atuante entre os mundos, e que consegue, através dessas diferentes esferas de realidade, forjar o seu destino com as próprias mãos.

Diferente, de modo geral, das religiões de massa ou “oficiais”, a bruxa ou o bruxo (como seres marginais) nunca precisaram, necessariamente, de um “intercessor” entre os mundos, não pelo menos da forma que um fiel católico precisa de um padre ou de um protestante precisa do seu pastor, quiçá um judeu do seu rabino.

É evidente que a bruxa não trabalha sozinha, como eu já disse aqui, mas sem precisar necessariamente da autorização de outrem, ela própria desembainha o seu punhal, purifica seu espaço e conversa com as esferas superiores (ou inferiores) a fim de buscar aquilo que precisa. A bruxa nem sempre é uma vítima passiva do seu destino: na medida do possível, é ela quem segura e guia as rédeas do seu futuro. Assim como um domador de cavalos, o bruxo lida o tempo todo com a selvageria de uma força que, em tamanho, lhe sobrepõe, mas que através da razão e da sensibilidade comedida consegue controlar e domesticar.

O Mago, no antigo tarot de
Marselha. Detalhe na sua mesa
cheia de instrumento. 

A bruxa é uma trabalhadora, e não é à toa que sua Arte pode ser traduzida como Ofício. O bruxo, como o alquimista que é por natureza, em sua oficina de trabalho, transforma a passividade em atitude. A ignorância em sabedoria. A inércia em atividade. A distância em proximidade. Eles não precisam de “pontes” que levem os seus desejos além-mundo, pois a bruxa ou o bruxo por si só já são pontes.

Assim como o Mago no tarot tradicionalmente é retratado como um homem que maneja, em sua mesa, seus instrumentos de trabalho, a bruxa também o faz: e o mais importante dos seus instrumentos é sua Sabedoria – pois é através deste cinzel que ela transforma a pedra bruta (sua vida mundana) em Felicidade. À bruxa e ao bruxo lhes é permitido todos os caminho do Universo – acima, abaixo e no “meio”. De todos esses, apenas um é proibido: o da Infelicidade. Pois alguém que aprendeu a descer os degraus do submundo e a flertar com a lua branca entre as estrelas não poderia se contentar com tão pouco. Pelo menos não por tempo demasiado.

Há quem diga que Deus escreve certo por linhas tortas. Eu diria mais: Se é Deus quem escreve o destino de uma bruxa, pelas ferramentas que dispõe sobre seus altares (visíveis e invisíveis), ela é no mínimo co-autora dessa história. E se a Felicidade não caminha consigo, é porque algo está fora do lugar. 

Um comentário:

Lucas da Rocha disse...

Ótima reflexão, Odir.

Posso estar enganado, mas acho que há três divisões, grosso modo, sobre o "status" da bruxaria. Uma, comumente relacionada a uma visão tradicionalista, diz que a Arte é um ofício (parece que esta é tua visão); a segunda diz respeito mais especificamente à Wicca, e a trata como uma religião institucionalmente estabelecida, e que, portanto, deve abandonar a marginalidade; e ainda parece haver uma terceira, ou caminho do meio, que vejo ser chamada de Bruxaria Moderna, sendo considerada como o ofício de uma bruxa religiosa neopagã, mas ainda uma bruxa à margem, e que não tem anseios por abandonar a marginalidade.

Abraço.