quinta-feira, 24 de outubro de 2013

O que é exatamente "fertilidade"?

Um festival da colheita, ou Uma bacante
dançando na hora da colheita
,
de Alma-Tadema, 1880.  Na cena em questão, será
que a fertilidade no qual a bacante dança é uma fertilidade
exclusivamente das plantações?
 
Toda a literatura que nos é apresentada, logo de início nos nossos estudos, tanto sobre a Wicca ou sobre o paganismo como um todo, tende a falar em fertilidade: ritos de fertilidade, a fertilidade dos campos, etc. Mas são poucos os trabalhos que se dispõe a, de fato, refletir sobre esse conceito. O que é fertilidade? O que entende-se por fertilidade hoje é o mesmo que se entendeu ontem? A fertilidade é uma só para todos?

Partamos do princípio: por muito tempo foi construído o discurso de que o paganismo, de modo geral, tem suas raízes no campo, nas crenças e práticas populares dos camponeses anteriores – ou nos primórdios – do cristianismo. Os “ritos de fertilidade”, então, teriam um teor sexual relacionado ao crescimento das plantações e ao ciclo de plantio/colheita que eram de suma importância para a sobrevivência do homem antigo. A fertilidade, então, nada mais era do que a prosperidade física, material, dos campos – dos quais obtinha-se o alimento.

Mas poucos de nós, neopagãos do mundo contemporâneo, de fato ainda estão em contato com essas energias. Nossa comida é industrializada e encaixotada, assim como nossa bebida é enlatada, e envenenada com uma série de produtos que de saudável, pouco ou quase nada tem. Verduras ou frutas? Não vemos crescer, mas compramo-las prontas. Como alternativa, por mais saudável que seja nosso estilo de vida – por mais exercícios físicos que pratiquemos, por mais que nossa dieta seja balanceada – ainda que dependamos deles, não vivemos mais nos campos e pouco acompanhamos as suas transformações. De que adianta, então, celebrar a “fertilidade”?


Esse é o tema básico de todo o ciclo da Roda do Ano da Wicca: o processo de plantio, crescimento e colheita da natureza. Mas, hoje em dia, penso que relacionar a palavra “fertilidade” àquela fertilidade dos campos, das colheitas e do universo rural como um todo, pode soar meio anacrônico do que de fato vivenciamos no nosso dia-a-dia. Pois, assim, eu prefiro pensar que existem muitas “fertilidades”.


Baco, de Peter Paul Rubens.  
A imagem em um primeiro momento pode soar assustadora, 
mas basta refletirmos sobre qual é exatamente
a esfera de domínio de Baco: os excessos. Não
só os físicos, mas também os mentais, intelectuais
e espirituais. E pode ser que todos estejam
presentes na pintura. 
Vamos traduzir, nesse primeiro momento, fertilidade como uma fase de um ciclo. Um processo de uma energia que nasce, cresce e morre. Existiria, assim, então a fertilidade intelectual – a que alimenta nossos pensamentos com sementes de criatividade, que faz crescê-los com força e maturidade e faz morrer tudo aquilo que é velho e retrógrado –, bem com a fertilidade emocional – que nutre nossos sentimentos pelo amor e pelo carinho, amadurece-os através da honestidade e faz morrer tudo aquilo que é infeliz. 

Talvez a fertilidade dos nossos sonhos ou projetos de vida – cujos sonhos, aos poucos vão crescendo, para depois disso serem alimentados pelo trabalho e pelo esforço para, por fim, serem colhidos como realidade. E daí por diante. Quiçá a fertilidade física da reprodução humana – em seus processos geradores de uma nova vida, e daí por diante...

É importante que, a cada vez que usarmos a palavra “fertilidade” em nossos rituais, que saibamos, conscientemente, de que fertilidade exatamente estamos nos referindo. Ora, semelhante atrai semelhante: não podemos pedir por algo que não abemos exatamente o que é, como é ou de onde vem. Dessa forma, por exemplo, um Grande Rito – por mais aprimorado que seja esteticamente ou ritualisticamente – não seria muito mais do que um Athame gentilmente sendo enfiado em uma taça. Em magia, para as coisas surtirem efeito, todo rito tem de ter, por trás, um mito. E um mito consciente, coerente, quase que palpável em nossas mãos. 

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