sábado, 18 de janeiro de 2014

Sobre o sacrifício.

Aqui a Alegoria da vida humana, de
Guido Cagnacci. Detalhe na rosa que a
personagem segura na mão direita e na ampulheta
que traz na mão esquerda. Símbolos da brevidade
e do "despertencimento" da vida. Atenção,
também, na ouroboros que coroa-a. 
“Em magia, nada é alcançado sem que algo seja dado em troca”. Há quem diga que essa frase é de autoria de Gardner, mas nunca pude confirmar essa informação. Mas independente de quem tenha falado isso, penso ser essa uma grande verdade. E não só uma simples verdade, mas uma Verdade com letra maiúscula, um Mistério por si só. Esse “algo” que deve ser dado em troca pode referir-se a muitas coisas.

Algumas pessoas interpretam essa “moeda de troca” como as ofertas, oferendas ou sacrifícios que são feitos à certas divindades ou espíritos específicos. Flores, frutas, incensos ou até mesmo sangue ou carne animal nas vertentes bruxas que reconhecem tais práticas como válidas. Esse seria o “alimento” oferecido para que certas “energias” (vamos chamar dessa forma abstrata e pouco funcional por enquanto) possam “devolver”, no plano material, a oferta dada com os pedidos realizados. Mas me parece que a questão sacrificial na Bruxaria – e principalmente na Wicca – aparenta ser mais complexa e mais profunda que isso. Pelo menos a partir do momento em que a Bruxaria é entendida, também, como um caminho espiritual. Do contrário, seria pura e simplesmente feitiçaria.

Talvez a “oferta” que tenhamos de dar aos Deuses seja algo, em essência, muito menos palpável do que se possa imaginar. É possível que o verdadeiro “Sacrifício” não possa ser cortado sobre um prato ou mesmo derramado sobre qualquer taça pousados em um altar. Não descarto a possibilidade de que os mais poderosos “sacrifícios” estejam naqueles momentos (fortes e poderosos) em que descemos os degraus do Submundo e despojamo-nos de nossas vestes, assim como fez a Deusa certa vez. Acredito que a noção de “ofertar” algo vem do sentido de “oferecer”. Mas a contradição reside no fato de que jamais podemos oferecer qualquer coisa que não seja nossa. Como doar algo que não nos pertence? As flores que colhemos (mesmo as que plantamos) não são nossas para que possamos colher e tirar-lhes a vida. O fato de termos pagado, em dinheiro, pela caixinha de incensos, não torna aquilo “nosso” para que possamos, aí então, “presentear” qualquer deidade. O mesmo pelo leite, pelo vinho ou por qualquer outro tipo de sacrifício. A passagem de uma vida humana na Terra nada mais é do que um ponto na imensidão do Universo. Talvez nem nós mesmos nos pertencemos. Que direito teríamos, então, de “oferecer”, então, qualquer coisa que seja?

Aqui, o Enforcado no antigo
tarot de Marselha. Não esque-
çamos que o Enforacado sacrifi-
cou-se, e obviamente, por isso
consegue ver o mundo através
de outras perspectivas...
O Mistério reside no fato, então, de que os sacrifícios feitos (aqueles literais, físicos) não bastam para alcançar qualquer coisa por si só. Eles podem ser necessários, mas tem algo mais nessa história. As “ofertas” mais importantes consistem no abandono do ego, no afastamento daquilo que nos prejudica, no distanciamento dos maus costumes, está no abrir mão de tudo aquilo que nos impede de trabalhar, arduamente, para alcançar aquilo que almejamos. Os sacrifícios “literais” devem ser apenas simbólicos de outros Sacrifícios muito mais poderosos (e mais difíceis também de se fazer).

Me parece que oferecer Bolos e Vinho não é o suficiente para alcançar qualquer objetivo. As oferendas feitas fora do Círculo, no nosso cotidiano profano, aqueles que nos fazem ser uma pessoa melhor (e merecedoras daquilo que pedimos) também devem contar. Aliás, eu sugeriria que estas últimas são as que verdadeiramente “temperam” os sacrifícios “literais” sobre o altar. Estes, não bastam por si só. Talvez os Deuses sejam mais exigentes do que pensamos.

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6 comentários:

Jaqueline disse...

Gostei muito do texto, é um tema sobre o qual eu sempre reflito, vejo muitas pessoas ligadas ao paganismo nórdico super valorizando ou idealizando os sacrifícios sem atentarem para o “real” significado dos mesmos. O fato de reduzir tudo a materialidade sempre me incomoda, cheguei a ouvir coisas como “o verdadeiro sacrifício hoje é o dinheiro, já que ele que paga pelo que vamos ofertar”...nada mais errôneo ao meu ver!

Luciana Carlos Celestino disse...

Perfeita reflexão em seu texto. Penso do mesmo modo, parabéns pelo entendimento e clareza. ;-)

Mário Simões Kaiowá disse...

Eu adorei o texto e sempre pensei assim acerca de sacrifícios, pois os animais têm vida própria, porque matá-los seria devoção? a devoção vem de dentro, do espírito e não da matéria em si. O ato de derramar sangue pode até aumentar a conexão com o mundo das sombras apenas por correspondência da morte com o que não vemos, mas essa não é a única forma de fazer isso.

Luqiam Osahar disse...

Muito bom seu texto Odir! Espero que circule muito pela rede. As pessoas tem que entender o verdadeiro significado de 'sacrifício'. Parabéns!

Pedro Belenos disse...

Odir é sempre bom ler suas reflexões sobre os assuntos desse nosso mundo bruxesco. Ao pensarmos um pouco sobre a palavra sacrifício, vemos como o significado dela pode ser bonito. No fazer sagrado, podemos transformar de toda a nossa existência um "fazer sagrado" aos deuses. Enfim, parabéns pelo texto.

Michel Rodrigues da Silva disse...

Olá, Odir. Boa reflexão e parabéns pelo blog.

Acho que algumas partes da Bíblia indicam que a compreensão dos judeus e cristãos por vezes também foi nesse sentido:

"Pois eu desejava misericórdia, e não sacrifício; e o conhecimento de Deus mais do que holocaustos" Os 6:6

"Porque não é possível que o sangue de touros e de cabras
deva tirar os pecados." Hb 10:04

"Todo sacerdote aparece cada dia, ministrando e oferecendo muitas vezes os mesmos sacrifícios, que nunca podem tirar os pecados." Hb 10:11

"Rogo-vos, pois, irmãos, pela compaixão de Deus, que apresenteis os vossos corpos em sacrifício vivo, santo e agradável a Deus, que é o vosso culto racional." Rm 12:1

Penso também no simbolismo da queima do incenso em honra aos antepassados nas religiões dhármicas, que originalmente devia significar tanto a impermanência da existência (conforme o incenso queima) quanto o comprometimento às boas ações (conforme o perfume se espalha), e os simbolismos de outras ações (como fundir estátuas, acender lamparinas, espalhar flores) no budismo em particular, aos quais o Triptaka chinês dá significados metafóricos internalizantes.

Parece mesmo que a busca interior é uma constante em todo caminho superior, enquanto a expectativa de ganhos através de relações puramente materiais é sintomático de algo como uma 'baixa magia' ou simples crendice tola.

Abraço.