sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

As verdades em "American Horror Story: Coven" (Parte 1)

Poster de divulgação do seriado que iniciou em
outubro de 2013 e terminou na última semana de
janeiro de 2014.
Pra quem não sabe, American Horror Story (Coven) foi a terceira temporada de um seriado do gênero de "terror" (com aspas mesmo), criada e dirigida por Ryan Murphy e Brad Falchuk. A história fala de um clã de bruxas em Nova Orleans, cujas raízes remontam a Salém, e que lutam para sobreviver na atualidade. Os inimigos do Coven são tanto externos (caçadores de bruxas, vizinhos fundamentalistas religiosos, bruxas rivais ou a sociedade ignorante no geral) quanto internos (uma rede de intrigas e de boicotes que fazem as bruxas lutarem umas contra as outras para chegarem ao grau de "Supreme" dentro do clã).

O seriado tratou de alguns temas interessantes, como a posição da mulher na sociedade, a intolerância religiosa, o preconceito racial, também abordando temas históricos como a escravidão norte-americana. Uma mistura de fantasia, ação, romance, mistério e sensualidade, convenhamos, nem sempre muito bem sucedida. A história frequentemente deixou muito a desejar, mas valeu como divertimento e descontração. Aqui você pode baixá-lo

Resolvi fazer essa postagem (dividida em duas partes, pois é muita coisa) em função da popularidade do seriado, principalmente no meio pagão e bruxo. Como essas mídias muitas vezes servem de "porta de entrada" a novos estudantes do assunto, penso ser importante esclarecer algumas coisas logo de início. Vamos à elas... 

Marie Leveau

Angela Basset em cena. 
Brilhantemente interpretada pela atriz Angela Basset, Marie Laveau de fato existiu. Como foi mostrado no seriado, até hoje é chamada de "Rainha dos Vodus", foi uma importante bruxa praticante de um sincretismo entre práticas cristãs e africanas. Acredita-se nasceu em 1794 que tenha sido filha de um agricultor branco e uma mulher negra, de onde muito provavelmente herdou parte de sua tradição bruxa. 

Casou-se com um negro, Jacques Paris em 1819, que mais tarde morreu em circunstâncias não explicadas. Esse episódio abriu uma "brecha" para o seriado transformar o amor de Laveau em um uma espécie de Minotauro (o que não deixa de ser uma interessante relação, uma vez que esse mito é grego, ainda que o minotauro clássico seja frequentemente visto como um monstro que exigia sacrifícios e o Minotauro de Laveau uma vítima sacrificada). 

Laveau conforme pintura de
Frank Schneider
No seriado, Marie Laveau no mundo contemporâneo era dona de um salão de beleza, o que tem relação com a história dessa personagem. Depois da morte do marido, Laveau passou a exercer esse ofício trabalhando para famílias brancas abastadas. Especula-se que, na verdade, suas adivinhações e profecias advinham de uma importante teia de informantes alimentada pelos negros trabalhadores que acompanhavam, nas sombras, o cotidiano dos seus patrões. Laveau ficou famosa no seu tempo, inclusive foi dito que chegou a ser dona de um bordel. 

Em 1881 um jornal local informou a sua morte, mas existe uma lenda no qual continuou a ser vista depois disso. Isso também inspirou a "vida eterna" da personagem no seriado. Mas uma possível explicação é que uma das filhas de Laveau adotou o seu nome e continuou com o seu ofício bruxo. 

Até hoje as pessoas vão ao seu túmulo, no cemitério de Saint Louis, desenhando três cruzes em formato de "X" na esperança de que o espírito dessa bruxa ajude-os a alcançar certos desejos. Acredito que enquanto seu nome é lembrado, você vive. O que faz com que Marie Laveau, então, literalmente, tenha alcançado a vida "eterna" (pelo menos por mais alguns séculos). 

O que é digno de nota no papel de Marie Laveau no seriado: as (poucas) cenas de êxtase ritual temperadas com uma certa sensualidade, que ao mesmo tempo em que era divina também era infernal, configuram alguns segundos de verdadeiras obras de arte.  

Madame LaLaurie

Interpretação de Kathy Bates
É possível que tenha nascido por volta de 1775, o que a faz contemporânea de Marie Laveau, o que sustentou, no seriado, uma coexistência dessas duas personagens. LaLaurie Veio de uma família de colonizadores franceses e, obviamente, escravistas. Sua mãe foi supostamente morta em uma revolta de escravos. 

Casou inicialmente com Don Ramon y Lopez de Angulo em 1800, quando este morreu em Cuba quatro anos depois. Casou-se novamente em 1808 com um traficante de escravos chamado Jean Blanque que também morreu em 1816. Mas foi o seu terceiro casamento que rendeu-lhe a fama e o sobrenome: casou-se com o médico Luís LaLaurie em 1825. Em 1831 compraram a mansão na 1140 Royal Street, que até hoje serve de museu como mostrou no seriado. 

Reprodução de LaLaurie
na vida real. 
Nesse momento em diante LaLaurie passou a ser conhecida pelas suntuosas festas que oferecia à elite branca da região. Mas seu reconhecimento também adveio das lendas macabras que circulavam nos bairros marginais da cidade no qual falavam do seu costume de torturar e assassinar os escravos que possuía. Essas mesmas lendas contam que LaLaurie matou cerca de dezenas, quiçá centenas, de homens e mulheres negras por puro prazer. 

Supõe-se que LaLaurie tenha morrido em 1842 na França. 

O papel muito bem interpretado por Kathy Bates propôs interessantes reflexões sobre o papel da mulher na sociedade, o racismo e a tolerância cultural e religiosa. No seriado, LaLaurie sobreviveu, às sombras, por quase dois séculos. E o que persiste, na atualidade, desde os tempos coloniais, é justamente o que LaLaurie representa: o ovo da ignorância e da intolerância no qual nasce o horror da violência, coisas das quais devemos lutar. Como já disse Fiona (Jessica Lange) em certa ocasião: “When witches don’t fight, they burn” ou “Quando as bruxas não brigam, elas queimam”.

Quem é Papa Legba?¹ 

Papa Legba interpretado por Lance Reddick
Um dos mais importante espíritos, ou mais especificamente "Lwa" do Vodou haitiano. É visto como um Guardião, ou Senhor das Encruzilhadas. É responsável pelo trânsito entre os mundos dos mortais e dos reinos espirituais (Vilokan). Papa Legba sempre traz consigo as chaves necessárias para o começo de qualquer tipo de cerimônia religiosa: nos rituais de Vodou, Legba é o primeiro a ser invocado. 

Papa Legba: arte de Erzulie Red Eyes Art and Spirit
É o Lwa que representa a Ordem e o Destino. Essas noções, de uma forma muito superficial, talvez tenham inspirado os diretores do seriado a representá-lo como uma espécie de divindade responsável por "trocas", ou "pactos" no qual se oferece uma coisa (divina) em substituição de outra (mortal). 

A grossas linhas, e somente a título de ilustração, Papa Legba nas suas funções de "comunicador" - acredita-se que Legba conhece a língua de todos os homens e deuses - e também como um "descomunicador", pois o que fala é sempre ambíguo e enigmático, podendo nos trapacear e pregar peças, Legba desempenha um papel que na mitologia grega é frequentemente desempenhado por Hermes, ou aqui no Brasil na espiritualidade afro, por Exú.

O que é exatamente um "Coven"? 

A palavra "Coven" tem a mesma raiz etimológica da palavra "convenção" ou "congregação". Foi traduzida no seriado como "clã", o que não é de todo errado. Mas no seriado, as bruxas viam-se como rivais entre si, frequentemente competindo e tentando sabotar umas às outras. Tal comportamento seria totalmente prejudicial dentro de um Coven verdadeiro, e no mínimo, anularia qualquer desenvolvimento de habilidades intelectuais ou espirituais, sejam do indivíduo ou do grupo. 

Na imagem, o casal Sanders, nomes de grande importância para o desenvolvimento da Wicca nas primeiras décadas da segunda metade do séc. XX. 
Especialmente na Wicca, um Coven nada mais é do que um grupo de praticantes que reúne-se a fim de estudar e praticar o ofício bruxo. Os Covens tradicionais na Wicca tem suas linhagens que remontam até, pelo menos, meados dos anos de 1940 com Gerald Gardner. Um novo membro é sempre admitido em um Coven através de um processo de Iniciação e depois de Elevações de Grau. Depois de atingir o último grau na hierarquia do grupo, esses membros podem fundar novos Covens dando continuidade à linhagem bruxa. 

Como representado em American Horror Story, um Coven de verdade funciona como uma espécie de "escola" onde gradualmente os estudantes (Dedicados ou Iniciados) vão desenvolvendo suas habilidades sob a supervisão de professores (Iniciadores ou Grão-Sacerdotes). No quesito ensino-aprendizado, a hierarquia não é tão rígida como sugerida pelo seriado. Eu diria que dentro de um Coven real, todos são ao mesmo tempo professores e alunos, ainda que exista uma hierarquia ritual e de responsabilidades. 

Quem é a "supreme" de um Coven? 

Mais uma vez, Maxine Sanders, com seus
instrumentos ritualísticos. Maxine, junto com
seu marido Alex Sanders, são os fundadores da
Tradição Alexandrina da Wicca. 
Na prática, esse termo não existe. O que vemos em um Coven tradicional de Wicca é que a figura que desempenha a verdadeira "direção" do grupo é personificada na pessoa da Alta Sacerdotisa, uma mulher que através do estudo e da prática do ofício, atingiu o Terceiro Grau. Com o auxílio de um Alto Sacerdote, escolhido por ela, a Alta Sacerdotisa é "a primeira entre pares". É a autoridade máxima do Coven, mas seu poder não pode ser ditatorial como mostrado no seriado. 

Uma das atribuições de uma Alta Sacerdotisa é, inclusive, o de reconhecer uma substituta caso seja necessário. Mas ela deve fazê-lo gentilmente, pelo bem do Coven, quando ela já não dispõe mais de tempo ou energia para liderar o grupo. Ela precisa "morrer", simbolicamente, para que outra tome o seu lugar, mas "nascendo" para uma nova função que é a de Elder ou Conselheira. 

Essa Alta Sacerdotisa recebe o título de "Rainha" quando, do seu Coven, surgem no mínimo outros três Covens-irmãos. 

As mulheres na bruxaria. 

Teaser de divulgação do American Horror Story: Coven
Para um observador desatento, supôs-se, no seriado, que apenas mulheres eram bruxas. Mas havia um homem no Conselho (não encontrei o nome do personagem ou do ator), e no último episódio Myrtle (Frances Conroy) chega a sugerir que Leonardo Da Vinci talvez tenha sido um bruxo no passado. Fato é que a abordagem do seriado foi a experiência do poder feminino, da mulher mística, da femme fatale em suas mais variadas formas. E penso que esse objetivo foi alcançado.

No folclore, tradicionalmente a mulher é associada à bruxaria, uma vez que esse sempre foi um ofício marginal, proibido, oculto e até ignorante por ser iletrado e camponês. Era reservado às mulheres, pois, como consta no Malleus Malleficarum, a mulher por ser naturalmente inferior ao homem, está mais propensa às artimanhas e a sedução diabólica.

Ilustração do famoso mago renascentista
Heinrich Cornelius Agrippa von Nettesheim
(1486-1535)
No caso dos homens que estudavam magia, esses são lembrados como os magos medievais, renascentistas e até modernos, que estudavam a Filosofia Oculta, e diferente das bruxas ignorantes, eram letrados e muitas vezes pertenciam à hierarquia da própria Igreja. Eles detinham status e reconhecimento notório, muitos escreveram obras gigantescas, como Agrippa no séc. XVI. Outros, conselheiros reais como Rasputin nos séc. XIX-XX.

O fato dos homens que praticavam magia serem lembrados como sábios e as mulheres como ignorantes, é basicamente uma questão cultural de gênero e de preconceito histórico.

Fato é que, dentro de um Coven tradicional de Wicca, homens e mulheres trabalham juntos, frequentemente em pares, para desenvolverem suas habilidades em união. Aqui, acredita-se que homens e mulheres funcionariam como diferentes pólos de uma bateria e que os rituais seriam mais poderosos se realizados por casais.

Grupos rivais.

Da esquerda para direita, Marie Laveau (Angela Basset), Fiona (Jessica Lange) e Madame LaLaurie (Kathy Bates), a única que não era efetivamente uma bruxa. 
Em American Horror Story, haviam dois “clãs” rivais, liderados por Fiona e por Laveau. Em algum momento sugeriu-se que a primeira praticava uma bruxaria “branca” (no sentido de cor de pele), culta e com palavras em latim, e a segunda uma bruxaria “negra”, Vodou, em dialeto afro. Por algum tempo os grupos brigavam entre si até perceberem a necessidade de unirem-se em função de um bem comum.

Isso acontece no cenário bruxo e pagão da atualidade. Grupos e tradições digladiam-se entre si em função de discordâncias de crenças, práticas ou até de posições políticas. Às vezes dentro de um mesmo grupo, dissidências geram verdadeiras batalhas, bem pouco educadas, em redes sociais.

Geralmente esses conflitos reais são bem menos interessantes do que foi ilustrado pelo seriado. O que vemos por aqui geralmente são adolescentes desocupados, inventando “tradições” por semana ou aqueles mais velhos que se consideram detentores da verdade absoluta e não suportam ter seu “poder” contrariado. Muitos esquecem que um dos critérios para as verdadeiras iniciações acontecer, é a supressão do ego e a descida ao submundo no qual temos de percorrer com humildade.

Assim como as bruxas de American Horror Story superaram as suas diferenças em certa ocasião, que isso sirva-nos de lembrete para não alimentar ou dar corda às briguinhas virtuais (ou reais) que vemos por aí. Melhor promover o que agrada do que atacar o que desagrada.

É deselegante e Fiona ou Marie Laveau ririam de tanta babaquice...


_______________________

Mas o melhor eu deixei pra depois: sobre a "descendência" de Salém, os caçadores de bruxas, feitiços em latim, e uma análise uma a uma das "Seven Wonders". Aguardem a próxima parte!

12 comentários:

Iony Ming disse...

Adorei!Claro e objetivo!

Erick Oliveira disse...

Muito bom mesmo!

Diego King disse...

"Assim como as bruxas de American Horror Story superaram as suas diferenças em certa ocasião, que isso sirva-nos de lembrete para não alimentar ou dar corda às briguinhas virtuais (ou reais) que vemos por aí. Melhor promover o que agrada do que atacar o que desagrada."

Hell yeaaah !

Julia Rohr disse...

Perfeita sua reflexão perante ao seriado. Simplesmente amei cada parágrafo. E concordo plenamente sobre muitos assuntos abordados na série que até então passam despercebidos para os que apenas se limitam em assisti-la sem ao menos ter a minima noção da realidade com a parte fantasiosa. Parabéns Odir Fontoura

Samanta Tanakht disse...

Ótimo contraponto, muso.
Sabe uma coisa que eu curti foi a atitude da Delia, último episódio de se expor, de abrir o jogo e dizer "estamos aqui".Eu gostei muito da caracterização da Angela Basset e deuses, a Kathy Bates estava fantástica de Madame Lalaurie!
Em termos de história, a temporada deixou muito a desejar, mas concordo contigo, se o enfoque era poder feminino, o objetivo foi alcançado.
P.S: o nome do bruxo do conselho era Quentin. ;)

Priscilla Menezes disse...

Muito bacana! ansiosa pela próxima parte.

Hellenah Fryggah Leão disse...

Extremamente interessante!

J.S Hayes disse...

Eu adorei as informações contidas nesse post. Alguns eu já tinha visto mesmo, mas gostei da forma como você organizou elas e o final ficou ótimo. Uma outra lição que eu tirei, principalmente do último episódio, foi a de que os deuses sempre devolvem pra você aquilo que você planta.

J.S Hayes disse...

Eu adorei as informações contidas nesse post. Alguns eu já tinha visto mesmo, mas gostei da forma como você organizou elas e o final ficou ótimo. Uma outra lição que eu tirei, principalmente do último episódio, foi a de que os deuses sempre devolvem pra você aquilo que você planta.

Netto Epfel disse...

Excelente post. Parabéns

Iohan disse...

Parabéns pelo post.
Quando você diz "Acredito que enquanto seu nome é lembrado, você vive.", isso me identifica com a Luz Astral/Anima Mundi onde tudo o que já viveu um dia continua vivo, assim como tudo o que ainda viverá.

xtremuxxx disse...

Parabéns pela postagem