sábado, 8 de fevereiro de 2014

As verdades em "American Horror Story: Coven" (Parte 2)

Poster publicitário da série de televisão. 
Seguindo a postagem anterior, que você pode encontrar aqui, terminamos de listar uma análise das referências de "realidade" bruxa do seriado ficcional norte-americano. Agora, sobre Salém, os "caçadores" de bruxas da atualidade, o uso do latim e uma análise particular das "Seven Wonders".

"Descendência de Salém?"

Uma das formas de legitimação do Coven no seriado era a afirmação de que aquelas bruxas lideradas por Fiona “descendiam” das bruxas de Salém do séc. XVII. Uma questão interessante é que a descendência aqui não é física necessariamente, apesar da crença de que a bruxaria está nos “genes” e de que uma bruxa, na verdade, já “nasce” bruxa, como demonstrou Cordelia (interpretada por Sarah Paulson) no último episódio.

Gerald Gardner e Patricia Crowther, sua
Alta Sacerdotisa, em um ritual de Beltane.

Covens Gardnerianos chegaram até os
dias atuais.
A questão do “sangue bruxo” é muito mais complexa do que se parece. Apesar da existência de tradições familiares nos quais os pais passam os seus conhecimentos para os filhos, isso é exceção no cenário bruxo. 

Quando um membro submete-se ao ritual de Iniciação em um Coven, ele é abraçado em uma nova família onde passa a compartilhar as bagagens culturais e espirituais daquele novo círculo. As tradições bruxas, nas suas mais variadas formas, configuram tradições de séculos ou até milênios de história.

A noção de um Coven como uma “família” parece ter sido muito explicativa, muito principalmente nos últimos minutos do último episódio.

Na Wicca, apesar de sabermos que as origens da bruxaria e mesmo certos elementos de crenças e práticas remontam até a Antiguidade, os Covens tradicionais são organizados até um “ponto comum” que é Gerald Gardner. Alguns reivindicam origens mais antigas, como em Pickingill no séc. XIX, ou até origens mais recentes no caso de Covens não-tradicionais.

Caçadores de bruxas 

Ilustração de um culto evangélico brasileiro. 
No seriado, havia uma grande corporação que servia de fachada para o financiamento de uma perseguição sumária aos praticantes de bruxaria. Interessante notar é que na Antiguidade, certas práticas de feitiçaria eram proibidas pelo próprio Estado romano, por exemplo, que era ao mesmo tempo civil e espiritual. Na Idade Média, a Inquisição era uma braço tanto secular quanto religioso. Hoje em dia, praticantes de toda a espiritualidade que não é a “oficial”, continuam a ser perseguidos, seja pelo poder público, seja pelo poder privado (que, infelizmente, volta a confundir-se).

Em especial no caso brasileiro, vivemos em um momento histórico muito tenso. As igrejas evangélicas detém cada vez mais poder financeiro e político, e a cada dia que passa, crenças e práticas religiosas, que originalmente deveriam pertencer a um grupo específico, são impostas à todos os membros da população na forma de leis ou de costumes do que deve ou não ser “moralmente” aceito.

Os caçadores de bruxas no mundo contemporâneo (e real), manifestam-se nas igrejas evangélicas fundamentalistas, que agora especializaram-se, perseguindo todo tipo de minoria: as minorias religiosas, as minorias de gênero e sexuais e as minorias políticas.

Como no seriado, é o momento de unirmo-nos.

Feitiços em latim 

Na cena do seriado, Madison (Emma Roberts), Misty Day (Lily Rabe), Queenie (Gabourey Sidibe) e Zoe (Taissa Farmiga).
Esse é um traço comum do que chamamos de magia cerimonial, mas não é algo obrigatório em todo sistema de magia. Eu diria no máximo “recomendado” conforme alguns autores clássicos consagrados, como Agrippa, por exemplo. Para este:

“Ora, são as palavras de maior eficácia aquelas que representam coisas mais grandiosas, do tipo intelectual, celestial e sobrenatural, sendo mais expressivas e, portanto, mais misteriosas. Também aquelas que vêm de uma língua mais nobre ou de uma ordem mais sagrada; pois estas, como se fossem sinais e representações, recebem um poder de coisas celestiais e supercelestiais, (...) elas são veículos de um poder que lhes é conferido pela virtude do orador”. 

"Da virtude da fala e das palavras", Livro I.

Para este autor, o latim, assim como o grego e o hebraico, configuram idiomas sagrados e “potencializariam” qualquer atividade mágica. É uma referência que vimos no seriado e que também repercute na realidade.

Mas mais importante do que qualquer coisa, sabemos que o verdadeiro idioma compreendido pelos deuses é aquele do coração.

"The Seven Wonders"

Ou "Os Sete Prodígios/Milagres"
No seriado, as bruxas que “concorriam” ao grau de Supreme, tinham de dominar uma série de sete práticas mágicas que na verdade têm, umas mais e outras menos, relação com a nossa realidade. Uma bruxa ou bruxo, independente se para chegarem ou não ao grau de Alta Sacerdotisa ou Alto Sacerdote de um Coven (pois isso não deve ser uma ambição necessariamente), devem dominar ou pelo menos conhecer algumas destas e outras práticas:

Sinto em começar desapo, mas não. Pelo menos nunca conheci ninguém que conseguisse (ou que tentasse) mover objetos com a mente. Se isso de fato existe, acho que o esforço para fazê-lo é maior do que para levantar e ir pegar o que queremos com a mão.
Esse é o poder de controlar a mente de outrem. Vários praticantes de bruxaria seguem uma espécie de “código moral” no qual é proibido interferir no livre arbítrio alheio, o que demostra, por si só, a possibilidade (ou pelo menos a crença) dessa prática.
É evidente que o poder de sugestão, na verdade, é muito mais sutil do que demonstrado em American Horror Story: dificilmente uma bruxa conseguirá fazer uma pessoa dançar ou puxar os próprios cabelos. O poder da sugestão está em fazer outra pessoa tomar certas decisões ou inclinar-se a certas percepções que talvez não fariam ser uma interferência externa. É como apontar um caminho que faz a pessoa seguir o nosso indicador com os olhos, ou mostrar ou livro com uma frase destacada em marca-texto.
É difícil entrar dentro da cabeça de alguém, mas não muito trabalhoso mover o seu pescoço.
A capacidade de se transportar para outro lugar pode ser feita não fisicamente, mas espiritualmente. É o que muitos chamam de viagem astral: quando adormecidos, é possível que nosso espírito saia do corpo e, com um certo controle e determinação, guiá-lo a outros lugares. As vezes isso pode ser feito mais ou menos conscientemente. Isso exige muito estudo e prática supervisionada. 
Apesar desse poder, tal como é mostrado no seriado, ser muito útil em dias de congestionamento, penso que isso é o máximo que uma bruxa pode fazer.


Não é exatamente um critério, mas quase todo praticante de bruxaria que conheço domina algum instrumento divinatório. Seja tarô, runas, pêndulo, ou qualquer outro instrumento de divinação, penso que esse tipo de exercício é muito importante não só para o desenvolvimento individual do Iniciado, mas para o seu trabalho e o seu ofício bruxo como um todo.
Dificilmente um oráculo servirá puramente para prever problemas ou quaisquer acontecimentos futuros. Mais do que qualquer coisa, ele poderá servir como uma ferramenta de autoconhecimento. Eis que cada praticante estude e pratique aquele (ou aqueles) instrumentos que se sentir interessado.


O poder de dar vida a um morto aqui pode ser interpretado de forma muito mais alegórica do que real. Em tese, todo Iniciador ou Iniciadora deve matar e “ressuscitar” sua Iniciada ou Iniciado. Somos mortos (como seres profanos) para voltarmos à vida (como iluminados) e quem faz esse trabalho, pelo menos dentro dos Covens tradicionais, são os Iniciadores.
Aqui, “morrer” implica em abandonarmos tudo aquilo que é velho e prejudicial no passado. Morrer para renascer como Iniciado envolve o processo de deixarmos pra trás todo vicio ou mau costume que serviria de empecilho ao nosso desenvolvimento espiritual, intelectual ou emocional.


Essa habilidade é, de certa forma, um complemento do item anterior. O Submundo ou “Inferno” na Wicca é visto, também, como os nossos inconscientes ou a parte “escura” da nossa consciência. Descer aos nossos próprios Infernos corresponde ao processo espiritual de encontrarmo-nos com nossos vícios, nossos erros, nossos aspectos de “trevas” e que insistimos em esconder e encará-los de frente, aceita-los e transformá-los.
Ninguém volta dos Infernos da mesma forma: o bruxo que percorre esse caminho sempre volta transformado. E sim, fazemos isso várias e várias vezes ao longo de uma vida.


Consiste na habilidade de acender o fogo com o poder da mente. O máximo que eu ouvi, nesse sentido, era que Aleister Crowley (que também contribuiu, de certa forma, para o desenvolvimento da Wicca) conseguia apagar uma vela, à distância, com o poder da mente. Mas não consigo ver até que ponto isso é verdadeiramente útil ou interessante.
Mais uma vez eu prefiro aqui fazer uma leitura metafórica do assunto. Uma vez que o fogo representa o calor, a vida e o espírito, penso que “fazer surgir” fogo pode ser algo mais profundo do que se parece. E esse sim é um ofício bruxo: a habilidade de “dar vida” ou “energizar”.
A bruxa frequentemente sabe “acender” não só seus relacionamentos, mas sua vida como um todo. A bruxa deve saber “dar a luz” aos sonhos daqueles que a procuram, seja fazendo isso através de chás, orações ou leituras de cartas. Um bruxo deve “energizar” seus instrumentos sagrados para que seus rituais tenham eficácia, e isso nada mais é do que imbuí-los de certo “espírito” ou “fogo criador”.
O Universo nasceu de uma grande explosão, e se a bruxa é sempre transformadora e criadora dos seus próprios universos, penso que se um praticante de bruxaria deve saber fazer algo, é dar “luz” (na mesma medida em que também dá “sombras”), às coisas. 


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3 comentários:

victordiariodebordo disse...

achei otimo,e uma vez eu acho que consegui mover umas chaves com a mente,não tenho certeza

Saymon Freire disse...

"Uma bruxa frequentemente sabe “acender” não só seus relacionamentos, mas sua vida como um todo. A bruxa deve saber “dar a luz” aos sonhos daqueles que a procuram, seja fazendo isso através de chás, orações ou leituras de cartas. Um bruxo deve 'energizar' seus instrumentos sagrados para que seus rituais tenham eficácia, e isso nada mais é do que imbuí-los de certo 'espírito' ou 'fogo criador'."
Primoroso, Odir! Parabéns ;-)

J.S Hayes disse...

Talvez você pudesse ter aprofundado mais em algumas partes e achei super interessante a parte a respeito do Latim, apesar de preferir nossa própria língua, ou futuramente línguas célticas. No geral eu adorei o post. Até porque esperava por ele desde que li o primeiro há algumas semanas. Parabéns!