sexta-feira, 28 de março de 2014

Por que fazer rituais?

Aqui, Procissão em honra a Isis, de Frederick Arthur Bridgman. Atenção aos gestos rituais: o que eles significariam? Que tipo de mensagem estariam passando?
Por que fazer rituais? Joseph Campbell já dizia que o rito é a expressão do mito: mito (crença) e rito (prática), em união e sincronia, situam o indivíduo religioso em um ponto do Universo, lhes dão uma identidade, um sentido e uma missão. Se o homem na sua jornada espiritual – ou na sua jornada do herói, utilizando as palavras do autor – cumpre sua missão e consegue retornar ao ponto de partida, ele encontra assim a sua “bem-aventurança”. O que assim até parece fácil, mas não é. 

Em sociedades tribais/tradicionais, isso pode funcionar com uma certa frequência. Mas em nosso mundo moderno, ocidental e capitalista essa Jornada pode encontrar sérios empecilhos. Em um mundo onde tudo é tão rápido, apressado e consumível, penso que o movimento neopagão contemporâneo como um todo (assumo aqui o compromisso da generalização, e logo, não esqueço das exceções) acabou por fazer uma leitura muito ligeira, rápida e superficial da questão panteísta: se Deus/Deuses está/ão em ou é/são todos os lugares, acreditou-se que tudo é sagrado. E se tudo é sagrado, nada é profano. E se não existe a divisão do profano e do sagrado, o ritual muitas vezes torna-se obsoleto, desnecessário, substituível. Afinal, estaríamos “sempre” na presença do Divino. Por que ritualizar então? 

Vejo sérios problemas nesse tipo de visão. Em praticamente todas as tradições religiosas, o limite entre “profano” e “sagrado” é sempre algo muito claro. Antes de entrar na mesquita, os homens tiram os sapatos. Tão logo se entra na Igreja, benzemo-nos com água benta. Quando adentra-se em um terreiro, curva-se a cabeça em sinal de respeito. Na Wicca tradicional os bruxos fazem uso do Açoite antes de traçar o Círculo com a Faca – e somente quando esse mesmo Círculo for finalmente “aberto” no final é que o ritual encontra-se definitivamente finalizado. Festeja-se depois disso. 

Ora, se “tudo” é sagrado, esquecemo-nos desses limites. E uma das coisas mais especiais da experiência do contato com o Divino é exatamente o transpor a porta do profano, do material, do temporal, do efêmero para os reinos do sagrado, do imaterial, do atemporal e do eterno. Ali fazemos o que tem de ser feito e depois voltamos. Sim, voltamos ao ponto de partida. 

O ritual é uma forma de linguagem: comunicamo-nos com Deus/Deuses/Espíritos através do silêncio, da respiração pausada sob a luz das velas e da reverência frente ao Altar: tudo isso são mensagens ao nosso inconsciente de que “algo” diferente está acontecendo e é assim que as portas da percepção são abertas. A dança, a música, o riso e até a gritaria frenética que vem depois disso são expressões do Caos ou do Êxtase que são necessários à qualquer Criação. Gardner falava em palingenesia (do grego, algo como “repetir a criação”) no sentido de “imitarmos” os Deuses: se festejamos a Fertilidade, dançamos, mas se festejamos a Morte, meditamos, por exemplo. É bom que imitemos os Deuses: se eles morrem, nós deitamos no chão e cobrimo-nos com véu. Se eles nascem, levantamo-nos e esticamos os braços pra cima. Se eles fazem Amor, abraçamo-nos e beijamo-nos. 


Uma dediação à Baco, conforme retratada por Alma-Tadema (1889). Detalhe nos gestos rituais das sacerdotisas que dançam frente aos altares, ou até daquela que, mais silenciosa, medita no canto esquerdo da imagem. 

Agrippa sabiamente já falava que atraímos as virtudes dos céus através da imitação:

“Aquele que imitar melhor os corpos celestes, seja em natureza, estudo, ação, movimento, gesto, expressão, paixão da mente ou oportunidade do momento, mais semelhante será aos corpos celestes, podendo receber maiores dádivas deles”
Três Livros de Filosofia Oculta: Livro I, Capítulo LII. 

Respondendo à provocação do título do texto: fazermos rituais para conectarmos ao Sagrado de dentro e fora de nós mesmos, para lembrar (a nós e aos Deuses) que estamos ali e que somos feitos todos da mesma substância. Um importante Mistério está no fato de que o Sagrado está e não está em todos os lugares. 

Mais do que conectar, ritualizar é falar, é lembrar, é comunicar. Ritualizar é entrar em comunhão: é unir-se. É empreender uma viagem, uma Jornada, é ir pra depois voltar. Sem ritual, não viajamos, e se não viajamos, não voltamos diferentes do modo no qual partimos.


Leia também: 

4 comentários:

Daniel Firemann disse...

Muito bom o texto. Parabens.

Dallan Chantal disse...

Muito bom texto Odir Fontoura. Temos realmente perdido nossa conexão e o entendimento de como fazê-lo apropriadamente. A apoteose que os Antigos viviam através dos Mistérios quase não é mais compreendida. Os rituais não são algo mecânico e sem sentido, pois cada gestual, ação, palavras proferidas são portas que nos trazem novamente a comunhão. Como bem diz Nei Naiff, o autoconhecimento é a única evolução e, através dele, conseguimos nos inserir melhor nos mitos, ritualizarmos mais profundamente e, assim, religamos nossa comunhão com o Sagrado. E, pra finalizar, gostei muito de sua frase que cita que os mistérios estão inseridos no todo ao mesmo tempo em que não estão. Concordo perfeitamente.

A Jardineira disse...

Adoro teus textos, Odir.

Por perdermos o hábito de ritualizar, fizemos do mundo o que está hoje: superficial, triste, vazio da divindade. Nunca estamos diferentes pela alegria e pelo amor conectado, mas pelas dores a que somos expostos - até por vontade própria, mesmo que inconsciente.

Sou carecida eterna de perceber o celestial pertinho. Pequenos e grandes rituais, individuais ou emcomunhão são sempre bem-vindos.

Obrigada por partilhar conosco tuas palavras.

Uma excelente semana pra ti!

Fábio Alves disse...

Eu nunca havia me atentado a essa reflexão: se considerarmos tudo sagrado e nada profano, então por que ritualizar?

Sua reflexão é bastante apropriada e oportuna.