sábado, 31 de maio de 2014

A Bruxa, seus demônios e o Ego (Parte 1)

Anjos Caídos de François Edouard Cibot.
Existe uma história no qual é dito que o verdadeiro e melhor amigo é aquele que fala as coisas que justamente precisamos ouvir. Grande mentira. São poucas as pessoas que estão preparadas para se deparar abertamente com os seus pecados. Essas, conseguem encontrar justificativas e mais justificativas, algumas vezes muito bem elaboradas – mas outras nem tanto – como recurso, talvez como instinto de sobrevivência, para evitar o contato com as suas próprias sombras. 

Recuam, argumentam, apontam o dedo, ignoram. E não ouvem. É como se você apontasse para o céu pedindo que observassem o sol e eles preocupassem-se com a sujeira debaixo da sua unha. Eles não querem ouvir ou ver. Preferem o recolhimento e o conforto da covardia e da mesquinhez do que despir-se dos falsos valores. E o amor que nos tira essa roupa chama-se sabedoria. Tão cara, tão valiosa, mas horrorosa aos olhos de quem é medíocre – pelo menos na maior parte do tempo medíocre, pois somos todos medíocres em um ou outro momento.

A Bruxa, então, como sábia, é aquela pessoa que aconselha. Mas assim como semelhante atrai semelhante, muitas vezes o ignorante ouve apenas ignorância. Assim como o sábio, de tudo, extrai sabedoria. Nem sempre o profano, então, fica satisfeito com os conselhos de um Bruxo. Por isto, este só deve aconselhar quando o conselho for solicitado.

Não é a toa que o Diabo é o que é. O Demônio, em sua forma vulgar, nada mais é do que a projeção de todas as falhas e pecados humanos que insistimos em não aceitar. Muitos preferem projetá-los pra fora em uma figura bestial todas as monstruosidades mortais em uma vã tentativa de sentirem-se mais limpos. Criaram um Deus de amor que há mais de mil anos não consegue ensinar-lhes o que é isso exatamente. E nunca conseguirá. Porque não somos feitos à imagem e semelhança de um Deus bondoso e sem sombras. Mas sim de um Deus que, se – e eu digo se – é bondoso, também é malvado. Pelo menos algumas Bruxas acreditam nisso. E se esse Deus tem as suas sombras, porque suas crias também não teriam?  

O Diabo, no tarô de Rider-Waite.
Alguns demônios de fato existem, e gostam de ser ouvidos. Se não lhes damos a atenção que merecem, eles gritam através da nossa ignorância. E ao invés de gritarem para nós, mortais, fazendo-nos mais Sábios com isso, falam para os outros, que já ignorantes, fazem de nós iguais ignorantes. Ou, pior do que isso, fazem-nos exilados da companhia de quem verdadeiramente desfruta da sabedoria. A ironia está no fato de que são nossos monstros aqueles que podem ser nossos maiores mestres. Mas isso requer coragem para estilhaçar a redoma de vidro que constantemente nos conforta, mas que em troca, aos poucos nos mata.

Nem todo mundo está disposto a fazê-lo. É aí que entra o Ego. 


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3 comentários:

Aline Pandora disse...

Muito bom Odir! Ansiosa pela Parte II.
Muitos neófitos e até brux@s antig@s precisavam ler isso...

Belchior Torres disse...

Odir sempre brilhante em seus textos! ^^

Yuri Raskin Pospichil disse...

Abraxas!