sábado, 31 de maio de 2014

A Bruxa, seus demônios e o Ego (Parte 2)

O Grande Dragão Vermelho e 
a Fera do Mar, de William Blake.
O trono da Perfeição deve ser deveras lindo, mas desconfortável. Ele deve ser feito de um vidro escurecido, porque apesar de ser vidro e em parte transparente, é opaco; deve ser alto o suficiente para distanciar o Perfeito de todas as tentações do Imperfeito; também deve ser o suficientemente gelado, pois aquele que senta nesse trono deve há muito prezar pelo que é firme, fixo, imóvel, estável. Morto, em outras palavras. O Perfeito é morto. É inerte.

Há quem diga que Lúcifer foi expulso do Paraíso por ter desafiado o poder do Deus daquele lugar. Eu arriscaria dizer que ele não foi expulso, mas que saiu voluntariamente, pois antes de muitos, foi Lúcifer quem percebeu quem tinha os verdadeiros pés de barro daquele céu. Se somos feitos à imagem e semelhança de Deus, e não somos perfeitos como esse Deus, então como já dito, esse Deus pode não passar de uma ilusão. De novo: pelo menos é o que algumas Bruxas acreditam.

Em suma, no entanto, o manto do perfeito, justo, valoroso, digno e belo deve ser um tanto quanto pesado. Por isso a Bruxa muitas vezes prefere a nudez da imperfeição, do caos, da desordem, da contradição. Os Bruxos têm os seus pecados, nem sempre se orgulham de muitos deles, mas aceitam-nos, como aceitam o sangue que corre pelas suas carnes. Esses pecados humanos estão nos olhos da Bruxa quando ela encara o seu reflexo. Eles saem da sua boca quando conversa com seus demônios – e quando apenas deixa eles falarem, seus pecados também estão em seus ouvidos. Ela pode apontar o seu dedo indicador, mas sabe que quando o faz, outros três apontam de volta para ela. Pecador não é aquele que assume os seus pecados. Este é sábio quando esforça-se para corrigi-los se esses pecados fazem o mal. Pecador, em verdade, é aquele que os encobre através do manto mentiroso do falso moralismo e perfeição ilusória – que ao enganar os outros, engana a si mesmo antes.

O Espelho, por Leon Bazile Perrault.

Também existe outra história no qual é dito que, quando estamos preparados, o verdadeiro mestre aparece. Já isso, felizmente, não é nenhuma mentira. Eu não sei exatamente o que é estar “preparado”, mas suspeito de algo: o peregrino que está apto para aprender com um mestre é aquele que, ao colocar o primeiro pé na estrada do Conhecimento, deixa pra trás o seu Ego que, frente às valiosas lições que a Vida lhe ofereceu, em troca disso muitas vezes sentiu-se ofendido, rejeitado ou humilhado. Essa bagagem provavelmente o acompanhará para sempre, mas sem dúvida, mais leve com o passar do tempo. Quando coloca, então, o segundo pé na estrada, percebe que não é somente a estrada do Conhecimento, mas também a da Ignorância. Porque uma coisa não é nada sem a outra. E como as serpentes do Caduceu, entrelaçam-se formando uma só experiência.

Essa pode ser uma das mais valiosas lições que um Bruxo pode ensinar: quanto menos damos ouvidos aos nossos demônios, mais egocêntricos nós somos. Abençoado é aquele que vê além do espelho.  


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