sexta-feira, 9 de maio de 2014

O Diabo dos outros.

Santo Agostinho e o Diabo, por Michael Pacher.
O discurso é velho, mas muito popular: para muitos, o diabo não seria nada mais que uma “invenção” de um cristianismo maquiavélico que queria subjugar os seus devotos aprisionando-os através do exercício do medo e do terror psicológico. 

Aqui, Satanás teria exclusivamente um uso político, e até “peda-gógico” na educação cristã. Esta legitimaria uma submissão natural dos religiosos ame-drontados sob as asas de barro de uma Igreja mentirosa. O diabo, em si, não existiria – apenas na mente “doentia” daqueles que acreditam e fazem acreditar nele. 


Ora, uma leitura possível? Talvez. Simplista e reducionista? Com certeza.


Penso que o pagão que recorre ao discurso de que o diabo é “inventado” faz uso da mesma lógica que o cristão quando diz que os deuses do paganismo não existem, mas que são “invenção”, fantasia, ou até mesmo demônios mascarados de deuses. Em ambos os casos, trata-se da desnaturalização do sagrado (e do maldito) do outro. Desnaturalizar é sempre uma forma de desrespeito, mas de um desrespeito que parte da pura ignorância e da falta de empatia. Quem não reconhece a verdade do sagrado do outro não pode se dizer uma pessoa tolerante. Nem defender a ideia (bonita, mas que nem sempre é colocada em prática) de que todos os caminhos levam a um só.

O Diabo no tarot de Bosch. Como
metáfora, muitos pagãos costumam ver
o diabo como o reflexo das sombras que
os homens insistem em ocultar de
si mesmos. 
Dificilmente um reconstrucionista helênico diria a um reconstrucionista egípcio que Set ou Maat, na verdade, não existem, mas que foram pura “invenção” das elites faraônicas para controlar o povo egípcio. Não consigo pensar no contrário: um kemetiano dizendo a um heleno que Hades ou as Parcas sempre foram, na verdade, um recurso pedagógico dos sacerdotes para controlar os devotos da Hélade. Ambos podem discordar de algum wiccano que diz que sua deusa-Lua é a Deusa e não uma deusa. Mas se todos sentarem juntos em uma mesa de bar, dificilmente discordarão quanto ao fato de que os deuses do outro de fato existem, ainda que existam para eles e naquela realidade de culto. Por que a mesma lógica não pode ser seguida quando o assunto é cristianismo?

Eu não nego – e seria louco se o fizesse – que, de fato, a crença no diabo sempre foi um recurso utilizado politicamente para ameaçar, controlar e coibir certas crenças e práticas possivelmente heterodoxas ou moralmente questionáveis. Antes pelos católicos, depois pelos protestantes e hoje pelos neopentecostais. Agora negar a realidade desse personagem para o cristão, nada mais é do que violar não uma parte, ou um elemento, mas sim toda crença dele. Porque quando você diz que o diabo na verdade não existe, você desrespeita o apreço que ele tem pelos seus sacerdotes, desnaturaliza sua visão acerca da criação e do fim do mundo, bem como também faz pouco caso das suas crenças sobre o pós-vida.

Se você, pagão, não gosta que os outros digam que os seus deuses, em verdade, são personagens de quadrinhos, não diga que o diabo dos outros é uma “invenção” maquiavélica. Ele pode não ter lugar no exercício da sua espiritualidade, mas isso não faz com que ele não exista para os outros. Se não por uma questão de compreensão do multiverso religioso, deixe de lado esse discurso simplista por uma simples questão de educação mesmo. 


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8 comentários:

Driko Carvalho disse...

Simples e perfeito!!! - o assunto ainda dá muito pano pra manga... o discurso de que o diabo seria uma "invenção" dos cristãos para causar medo, é totalmente infundado e é propagado por neo-pagãos que não tem o menor conhecimento teológico, filosófico e histórico.

Já ouvi muitos dizerem que "antes" na "era de ouro do paganismo" tudo era paz e quem trouxe as maldades pro mundo foram os "malditos cristãos" (um discurso que me lembra uma inquisição as avessas)... gente, vamos acordar para a realidade... é só analisar as próprias mitologias as quais muitos neo-pagãos admiram para vermos que em todas elas sempre houve o elemento "diabo" como aquele que pune, como aquele que "leva ao castigo pós vida".

Dizer que um inferno no qual há punição pelos "pecados" em vida é uma invenção cristã é pura hipocrisia... o que dizemos dos castigos eternos que acontecem no Tartarus?

O que dizer dos 'pecadores' que tinham seu coração pesado junto da pena de Ma'at, e se o peso fosse maior que a pena seriam devorados pelo deus-diabo crocodilo? O que dizer de Apep/Apophis?

(isso para citar poucos dos muitos exemplos, e usando apenas duas mitologias como referência)

Como sempre, Odir, um excelente texto!

Taciana Cavalcanti disse...

O mal existe em todas as culturas e crenças, também existem aqueles que o usam para tirar proveito de pessoas com pouco conhecimento dentro delas ou supersticiosas não apenas as cristãs

Aline Pandora disse...

Muito bom, Odir Fontoura.
Eu partilho de sua visão com relação ao respeito, por mais que as vezes seja dificultoso colocar em prática. Mas a questão é realmente essa: porq é tão difícil respeitar a crença do outro, principalmente quando essa provém de uma vertente diferente da sua?
Levemos em consideração também que, mesmo que o diabo não exista - nunca saberemos, a não ser que o cultuemos, na minha opinião -, é inegável que tal figura que possui uma egrégora tão solidificada, que foi tão alimentada por todos no decorrer dos anos, ao ponto de se tornar uma forma-pensamento muito forte e poderosa. Creio então, que esse ser possa existir dentro daquela egrégora.
Mas garanto que na minha ele não entra... hehehehe
Adoro suas postagens... elas sempre agregam muito. Parabéns pelo trabalho.
E quanto a outra postagem - são Baco e são Sérgio -, quando sairá?
#estounoaguardo

Mariela Mei disse...

Mto bom o texto, Odir! Super lúcido... Mostra que o respeito começa pelo reconhecimento de que o outro tem uma verdade, assim como temos a nossa. Gostei muito mesmo.

Emanuel disse...

O grau de lucidez que você possui, meu amigo, é único.
Sempre aprendo com você.

Hekátos Grecus disse...

Ótimo texto, acho interessante debater sobre esse ponto, levando em conta do tanto de pessoas que acreditam em Satanás e partindo do princípio de egrégora é meio engraçado pensar que ele não existe. Não negar a existência de um ser que faz parte da egrégora cristão não me torna menos pagão (apesar de algumas pessoas afirmarem isso em outro grupo), ou o melhor, saber que ele existe também não torna ele como um agente presente na minha vida!

Hekátos Grecus disse...

Se fala muito do preconceito presente no Paganismo, com pessoas dizendo que os Deuses não existem ou que são demônios, eu me ofendo quando isso acontece, creio que a maioria também, então porque retribuir essa ofensa a outra crença? Aliás, dizer que ele é um ser inventado, inegavelmente vem a ser devido as mudanças e atributos adicionados a sua egrégora com o passar do tempo, mas isso torna ele inexistente? Obviamente não, lembrando que o mesmo ocorreu com os nossos Deuses, principalmente entre os gregos (meu panteão de culto), a cada cidade e influência recebiam novos atributos e mesmo assim eram e são vivos, extremamente vivos!

Leo Natura disse...

Bom, eu sempre deixo claro pros cristãos que EU não acredito no diabo deles. Mas não tento fazer eles deixarem de acreditar, até porque, em muitos casos, nem adiantaria.rs
A meu ver, realmente não existe diabo. Mas cada um acredita no que quiser. Eu não me meto nas crenças dos cristãos, assim como não gostaria que eles não se metessem nas minhas (mas sei que, nesse último quesito, já estou esperando demais, né?).