quinta-feira, 11 de setembro de 2014

Porque eu deixei de acreditar nos deuses.

Salomé, de Jean Benner. 
Eu poderia começar esse texto perguntando: “quem nunca?”, mas muitos aqui levantariam a mão, e eu não quero começar esse texto causando estranheza. Nem todo mundo deixou, algum dia, de ter fé. Ou de acreditar em “algo”. Mas mesmo que você não tenha passado por isso, eu queria que você entendesse como é a situação. E acho interessante que isso um dia aconteça, porque é mais uma – dentre tantas formas – de descer ao Submundo. E como tal, nem todo mundo volta: conheci pessoas que lá ficaram, mas também outras que retornaram, diferentes de quando partiram.

Sempre tive a oportunidade, felizmente, de ter poucos, mas grandes amigos por perto. E quando deixei de acreditar nos deuses – e assumir isso ainda soa doloroso pra mim, quase que vergonhoso – procurei a ajuda deles. Lá no fundo eu procurava uma resposta, uma solução, uma “iluminação” (externa) para que eu voltasse a crer. Porque sozinho (internamente) eu não conseguia fazê-lo.


Foi um tempo difícil. Meu altar acumulou alguma poeira e eu, por muito pouco, não o desmontei e transformei a estante da parede em mais uma prateleira normal de livros, como todas as outras. Pensei em separar alguns desses livros para vender ou doar. Também cogitei apagar esse blog. De modo geral, a coisa era simples: eu perdi minha fé. Comecei a cogitar se “tudo isso” não era uma grande bobagem: deuses, invocações, círculos, athames, velas, incensos... Talvez não houvesse nada além de mim mesmo e nenhum “outro lugar” para visitar as vezes. Talvez a crença em deus/deuses fosse apenas mais uma forma de manifestação de carência/ingenuidade que é tão natural ao ser humano.
A Torre de Rider-Waite.

Bom, de qualquer forma, eu procurei a ajuda dos meus amigos, e ainda que eles tivessem me ajudado, cada um à sua forma, eu não alcancei o que eu esperava: uma solução mágica. Porque eu percebi que esse estado de “descrença” (vamos chamar assim por enquanto) é sempre individual, manifesta-se de diferentes formas para diferentes pessoas. E cada um resolve à sua forma. Em outras palavras: eu estava sozinho nessa. Literalmente, sozinho. Sem deuses, inclusive.

Depois de muito refletir eu encontrei duas razões básicas para que isso acontecesse. E como eu já disse, não tenho vergonha de dizer: eu deixei de ter fé porque 1) certas coisas que eu pedi não foram alcançadas e 2) me decepcionei com pessoas ligadas ao Ofício. Algumas tidas, inclusive, como “autoridades” por muitos – e, até então, por mim mesmo. As decepções foram tão grandes que a Torre desmoronou e a fumaça das ruínas levantou-se por tempo suficiente para eu perceber que minha descrença, na verdade, não era para com os deuses, mas sim para com as pessoas. Na verdade, algumas pessoas.

Estava eu passando por problemas pessoais e questionava sempre “se existem deuses, por que eles não me ajudam?”. E é claro, eu não obtive respostas. Pelo menos não naquela hora. Mas o tempo passou, a poeira baixou, e – como diz meu sacerdote – dentre o carvão das destruições, eu encontrei um diamante. Percebi que basicamente 1) não podemos agir como crianças mal-educadas que sempre ganham tudo o que pedem dos pais, mas que, no primeiro momento de contrariação, sentam e choram no chão. Essa é uma postura feia, ingênua, literalmente infantil; e 2) diferentes das religiões de massa, nós não podemos esquecer que nossos sacerdotes e sacerdotisas NÃO são os representantes de deus/deuses na terra. Pelo menos não o tempo todo. Essas pessoas são falhas, como todas as outras. Talvez falhas, inclusive, como os deuses – mas isso é tema para outra discussão. Fato é que eu ainda ouço por aí: “deixei de praticar ‘Wicca’ (substitua a palavra ‘Wicca’ por qualquer outra) porque as pessoas são muito idiotas”. Sim, as pessoas são idiotas. Mas os deuses e os espíritos que nos guiam não o são necessariamente. É sempre problemático confundir as coisas. Você pode ficar perdido no submundo e não voltar mais.

O Enforcado de Rider-Waite. 
Pra resumir: eu voltei a ter fé. Não sei se pra sempre ou se só por mais algum tempo. Na verdade não me importo com isso. Fato é que percebi que eu não poderia desenvolver nenhum tipo de espiritualidade enquanto estivesse emocionalmente doente/carente/ frustrado/recalcado. Pra mim, diferente do que muitos dizem, as religiões e/ou as espiritualidades de um modo geral, não devem ser “terapêuticas”. Pra isso existem psicólogos. Pra mim, a Bruxaria, em especial, só servirá antes de mais nada se eu estiver emocionalmente saudável. Pra mim, nossa saúde mental/emocional/ intelectual é um ticket de passagem para o outro lado. A melhoria do meu “eu” deve ser uma consequência, e não um fim, no caminho da Bruxaria. 

Eu não faço rituais para “ficar bem”. Penso que eu já devo “estar bem” para fazer rituais verdadeiramente transformadores. Não posso inverter a lógica. Essas foram, então, algumas das “verdades” que trouxe do meu submundo. Estou feliz por conseguir voltar e compartilhar isso.

47 comentários:

Eliane de Leon V disse...

Adorei teu texto. Estive num momento igual, e pelos mesmos motivos... Mas aos poucos estou me encontrando novamente.

Anônimo disse...

Acredito que é uma fase que passamos.
Após passar por essa fase, voltei com muito mais fé e consciência.

Rubens Lacerda Belo disse...

texto, Odir Fontoura. Inspirador e verdadeiro. A famosa "noite negra da alma" parece uma eternidade. Grande abraço e tudo de bom.

Angelo Garcia disse...

Bem vindo de volta. Crescer, se desenvolver dói, mas tb estimula a sua resistência. Fique bem

Bruno Diniz disse...

Muito bom! Precisava ler um texto assim.

Fábio Firmino disse...

Texto muito bom. Parabéns pela honestidade, essa honestidade que, ao invés de lhe diminuir, lhe acrescenta e aos outros que lerem seu texto.

Mikka Capella disse...

Querido (apesar de não nos conhecermos pessoalmente, me permite te chamar assim?), crises fazem parte do caminho, eu diria até que são necessárias. Excelente texto e excelentes reflexões. O único ponto em que discordo, talvez por ser de outra vertente espiritual, é quanto a buscar o sagrado apenas quando se está bem o bastante pra isso. Os Deuses também são ótimos pra nos colocar de pé e para curar as nossas feridas. Isso é usar a religião como terapia? Talvez. Mas você sabe que enquanto amigos, pais, filhos e amantes, algumas vezes, também precisamos ser um pouco psicólogos. Lidar com o outro não apenas em suas melhores fases faz parte de qualquer relacionamento. E algumas vezes tudo que precisamos é nos deixar amparar no colo de nossos senhores.

Regina Guigou disse...

Acho necessário passar por isso pq é uma forma de se renovar, para refletir. Eu também passei por isso e olhando para trás vi o quanto eu cresci...rs

Eva Morrissey disse...

Eu encontrei algo muito parecido na minha última voltinha ao Submundo. Levei alguns anos pra voltar de lá, e quando consegui voltar, foi por outra trilha que era totalmente nova, pra encontrar alguns diamantes que eu nem sabia que tinha perdido. Minha conclusão foi a de que Eles sabem o que fazem, sabem do que precisamos e quando estamos prontos a receber. Não voltei a duvidar.

Ever Faun... disse...

prezado, Gratidão pela inspiração e pelo texto.
Sempre deparo-me sobre essa questão de acreditar, desacreditar... e então, entro no mesmo submundo.. das trevas, e no caos da inexistência de algo maior do que nossa compreensão mortal.
é muito triste e doloroso, ver seus materiais, livros e aprendizado de tanto tempo ser deixado de lado, em prol da dúvida...
Eu como solitário errante nos caminhos, busco sempre o equilíbrio, e nos momentos de maior desespero recebo aquela garoa no final da tarde e sinto: eles estão aqui pois a essência divina sempre existirá independentemente das eras que passam.

Novamente graditão pelas palavras.
iluminados sejam seus passos ;)

Luz disse...

Oi Odir, sempre gosto muito dos seus textos! E que bom ler este, meio difusamente achava que só eu vivia momentos assim. Mas, a fora as decepções com as pessoas, minha descrença nos deuses é por um motivo diferente: talvez eu esteja errada, mas para mim chegou (não sei se acontece com todos) um momento em que as imagens de deuses se tornaram vazias, sem vida. Isso porque passei a crer e sentir e preferir a Divindade Cósmica. Sim, é um caminho solitário, árido, mas tem sido muito mais recompensador. Ao mesmo tempo, vejo as imagens de deusas e deuses como faces humanizadas da Divindade e, se tenho que me reportar a algo mais próximo de nós humanos, prefiro a Deusa Natureza. Estranhamente isso me aproximou mais do Wicca e da Magia Natural, agora com uma visão minha, própria. Ainda estou me encontrando nessa nova fase, porque é um caminho estranho até mesmo para explicar. PAZ e LUZ.

Luz disse...

Ah, sim, é um mergulho no Submundo! Sozinha, como você disse, ninguém entende ou pode ajudar realmente.

Eva Morrissey disse...

Tudo o que sei é que agora estou mais feliz do que nunca. Deixei de ter problemas? Não. Mas no momento eles não interferem na minha fé, e eu continuo rememorando e reinterpretando as coisas que aprendi quando cai - em parte, por conta do meu próprio egoísmo e infantilidade. É curioso encontrar mais pessoas que compartilhem esse tipo de experiência ^-^ Abraços!

Liz Ribeiro disse...

Esse texto me representa , rsrsrs.

Alana Alencar disse...

Aconteceu comigo pelos mesmos motivos, e ainda estou me recuperando aos poucos, porque o "baque" foi enorme.

Dylan Caico disse...

Gratidão por compartilhar esse texto! Lendo, encontrei respostas para muitas coisas que estão rolando comigo..

Debora Ceccacci disse...

Texto impecável. Eu me senti assim também por um longo período...mas aos poucos, reencontrei a motivação para crer novamente. :)

Thiago Martins disse...

Texto excelente!

Luís Gustavo Pereira disse...

Meu querido amigo e irmão Odir Fontoura,

Li e reli sua postagem. E compreendi perfeitamente cada palavra. E acredito ser plenamente natural esse período em que algumas (várias) pessoas deixam de acreditarem em seus deuses por determinado tempo, independente da motivação que as tenham levado a esse "sentimento". Até mesmo, a famosa Madre Teresa de Calcutá, já beatificada pela Igreja Católica em 2003, em curso para a canonização e santidade, passou por aquilo que costuma se chamar de "noite escura" (não confundir com "a noite escura da alma" tão popularmente conhecida no neo-paganismo como "dedicação na Wicca"). O conceito de "noite escura" na vida de religiosos e espiritualistas, está diretamente relacionado a esse momento em que a fé é colocada à prova e que não se recebe (ou não se percebe) nenhuma resposta do Sagrado. Madre Teresa, na década de 1950, escreveu algumas cartas a um Padre, e em algumas delas dizia:

"Tão profunda ânsia por Deus - e ... repulsa - vazio - sem fé - sem amor - sem fervor. Almas não atrai - O céu não significa nada - reze por mim para que eu continue sorrindo para Ele apesar de tudo." Em 1959: "Se não houver Deus - não pode haver alma - se não houver alma então, Jesus - Você também não é real."

Biógrafos de Madre Teresa afirmam que ela viveu uma grande fase de escuridão interior que se prolongou até a sua morte, porém sabia e/ou que estava unida a Deus, mas NÃO CONSEGUIA SENTIR NADA.

São João da Cruz denominou esse "período" da vida de um peregrino como "noite escura do espírito" (séculos antes do termo ser cunhado pelo neopaganismo). E as vezes, esse período pode se prolongar para sempre.

Outro bom exemplo, é São Tomé, conhecido por sua descrença em parte de seu período de vida.

Como o Sagrado manifesta-se das mais diferentes formas, nas mais diversas crenças e espiritualidades, e somos nós humanos que costumamos rotulá-las como "religiões", essas experiências vividas por Santos e Beatos cristãos podem perfeitamente ilustrarem o que ocorre com qualquer outra pessoa de qualquer outra vertente espiritual - e aqui não importa dizer que as divindades pagãs tem características imanentes, pois a descrença pode surgir também sobre a própria questão da imanência da Divindade.

Eu compreendo perfeitamente esse período da noite escura do espírito, apesar de nunca ter passado por ele. Entretanto, talvez pelo fato de ter uma fé brutal que supera até os limites do impossível no que diz respeito aos deuses que cultuo, o máximo que já aconteceu, foi "rápidos desentendimentos", assim como ocorre com um amigo ou um familiar.

Adorei o tema. ; *

Daniel Saraiva disse...

Um texto e reflexão mais do que oportuno para os dias atuais

Belchior Torres disse...

Maravilhoso menino, só mostra o quanto esses Deuses ainda vivem em ti, não importa o nome ou forma como os veja, eles estão todos em você e es sagrado por isso, por ser verdadeiro consigo, por não se negar, nada mais divino e vivo do que a verdade!
S2

Marcia Pinto Souza disse...

Você para mim é a ponte e o elo... os deuses estão sempre conosco, seguram nossas mãos e nos abraçam mesmo na escuridão.... jamais duvide disso!!!

Rafael Dantas disse...

Belo depoimento Odir. Faz-nos pensar em diversas situações, realmente muito interessante.

Raphael Copeiro disse...

Fantástico!

Diego Lima disse...

Excelente texto, gratidão!

Dick Stier disse...

Quando passamos por isso penso eu, que voltamos revitalizados transformados, são quando vem todas as respostas que antes não víamos.
Muitos passaram por isso, acho que voltamos mais sábios e humanos.

Dallan Chantal disse...

Cara, me emocionei bastante com seu texto porque vi uma pessoa muito próxima e querida a mim neste mesmo processo. Essa pessoa acabou de ressurgir também do Submundo e pelos mesmos motivos. Abençoados somos! ;)

Aline Pandora disse...

Ufaa, não sou só eu rs
Essas coisas acontecem com mais frequência do que imaginamos, e com todos os tipos de pessoas. O grande lance é sabermos lidar com essa situação e tirar a sabedoria delas ;)
Texto maravilhoso, como sempre. Não sabia que eu o estava lendo, ou se ele estava me lendo. Parabéns Odir!

Bruno Passos Cotrim disse...

Texto incrível. Ando passando por problemas semelhantes. A vida de universitário as vezes parece tão difícil de conciliar com a vida espiritual que as crenças se abalam junto com a saúde psíquica. Enfim, obrigado por esse texto!

Felipe Barcellos disse...

Sempre te admirei por muitos motivos. Mesmo a gente não convivendo quase nada, o pouco que deu pra te conhecer ficou claro pra mim a pessoa fantástica que tu é.

Eu admiro a tua fé e mais ainda a tua coragem ao falar sobre ela, e principalmente sobre a falta dela.

Os poucos anos que estive mais envolvido com a comunidade pagã, fiquei sabendo de causos e coisas muito feias que as pessoas faziam, tudo pelo ego, tudo pelo sí, nada pelos outros, tão pouco pelos deuses que defendem/representam/professam.

Acho que a gente já teve essa conversa, sobre a minha saída do paganismo e tudo mais.

Felizmente, minha razão não foi por causa das pessoas, se dependesse disso, eu sequer teria entrado nesse meio, pois desde meus primeiros contatos surgiram pessoas bem questionáveis.

Mas também surgiu o Odir e tantas outras pessoas incríveis.

Minha saída foi por motivos pessoais, mesmo porque, acho que desde o início eu não pretendia ficar. Eu apenas precisava viajar, conhecer. E foi uma das partes da viagem que eu mais gostei. Até hoje cantarolo, mas com outro mindset: espiralando ao centro, ao centro de nosso ser... Com lembranças muito boas das pessoas que conheci e das coisas que vivi.

Eu não sei nem dizer se foi falta de fé o que me fez sair. Acho que ela nunca acabou. O que mudou foi o meu entendimento sobre esse fenômeno. Depois que saí da wicca, fui para o xamanismo, passei brevemente pelo hinduismo, estacionei um pouco em algumas vertentes budistas, sendo que dessa última é a que mais me identifico e até hoje influencia minha vida.

Hoje eu não acredito em Deuses, Deus, forças superiores. Acredito em outras coisas. Mas por esses Deuses eu ainda sinto muito respeito. Principalmente pelo impacto positivo que causaram em mim.

Obrigado, Odir, por tu seres um diamante em meio a todo esse carvão. Não sou mais pagão tão pouco tenho religião, mas ler teu blog é sempre uma experiência transcendente.

Continua assim, inspirando a todos! Seja como pagão, como professor ou como HUMANO incrível que tu és.

Sucesso, saúde, saudades, meu amigo!

Adriana Zampolli Ramos disse...

Odir Fontoura eu desmontei altar, meus livros foram vendidos para os sebos, queimei 3 livros das sombras (arrependimento), e isso durou 2 anos. Hoje ministro treinamentos em Wicca. Acho que isso já aconteceu com muitos dentro da Arte . Vou ler seu texto. OBS: Existem vários textos ateístas da Adriana pela internet. rs

Odir Fontoura, li seu texto. Um dos principais motivos foi a decepção com os próprios bruxos. A internet dentro do meu caminho mágico, foi a gota d'água. Aprendi que a magia é diferente para cada um.Vivenciamos "energias" diferentes. A magia é simples, mas existe uma sutileza que a torna complicada. Hoje, pratico a minha magia e a minha forma de praticar magia.

Katharina Dupont disse...

Oi Odir

Vou tentar não fazer deste comentário um texto longo e cansativo, apenas vu te dizer que compartilho da tua opinião sim. passei por uma situação identicas 2 vezes em dois anos. A primeira deu origem a Torre do Entremundos tarot.. perdi não apenas a fé nos deuses mas em im e nos oraculos.Aprendi nesse periodo de choque e duvida que se tal coisa aconteceu é porque deveria ter mais devoção e humildade aos deuses ( essa foi a lição final).Saber que se as coisas não saem como eu planejei e me dediquei é porque não cabe a mim julgar os resultados finais.
A segunda vez foi uma crise com Afrodite, ela não atendeu o meu desejo, não ouviu minhas suplicas e virou meu mundo de ponta cabeça.. mal sabia eu que depois dessa virada eu me tornei uma pessoa mais sábia, mais lúcida e centrada..Quase arremesei minha imagem na parede. No final.. eu a dei e nunca mais conseguir refazer a relação com ela
Eles fazem isso conosco.. nos colocam em situações tensas pra que nós mesmo nos testemos..Como podemos questionar aquilo que não nos cabe saber?
Humildade ... tudo se resume a isso..

E se voce excluir este blog, vou até o Sul te cobrir de tapa!!

Leo Natura disse...

Eu também tive uma fase em que deixei de praticar a minha religião (o Candomblé), por me irritar com o fato de os deuses não me darem uma coisa muito simples, mas que nunca chegava (e eu, pessoalmente, não tinha poder pra conseguir aquilo sozinho).
Naquela fase, não deixei de acreditar na existência dos deuses (até continuei louvando o trovão, o relâmpago, o arco-íris quando via um desses fenômenos), mas virei as costas pra eles, porque entendi que eles também tinham virado as costas pra mim.
De fato, só voltei à minha religião quando a tal coisa aconteceu.
Algumas pessoas talvez achem isso um ato de injustiça ou de infantilidade. Mas o que eu queria era me livrar de algo que estava me sufocando. E só consegui encontrar um pouco de paz quando me livrei daquilo, embora até hoje eu tente consertar os estragos que aquilo causou na minha vida.
Mas não acho que eu tenha cometido nenhuma injustiça contra os deuses. Apenas não fui exageradamente compreensivo. Nem pretendi ser. Sou justo. Mas não sou (nem pretendo ser) santo.

Jordan Moraes Costa disse...

É aquela velha história de que Lúcifer/Prometeu não nos deu o fogo/fruto proibido para voltamos a bater a porta do Éden/Hiperbórea implorando para voltar à casa do Pai que aí sim é ser um "bebê chorão" e isso não constitui Transformação/Crescimento Espiritual. Acredito que os Deuses muitas vezes tomam a forma de um inimigo através de uma crise, de um torturante "SILÊNCIO", fato trágico ou mesmo de uma pessoa "intragável" exatamente para nos levar aos nossos submundos para emergirmos mais fortes e sábios, destacando o epíteto de Hécate Antania, "a inimiga da Humanidade" que nos destrói para transcendermos dessa nossa "humanidade" que muitas vezes nos faz mais nocivos aos outros e ao mundo que agregadores, ou ainda Kali, a Mãe monstruosa que devora nossas BURRICES, ILUSÕES e HUMANIDADES. Até porque assim como a Iluminação é sempre Interna, o nosso maior inimigo também é.

Filha das Brumas disse...

Você é muito lindo Odir!!!

Anônimo disse...

Odir,
Eu também passei por um período similar, no qual certas coisas nas quais eu acreditava simplesmente perderam o sentido. Frente aos comentários anteriores não vejo como eu posso adicionar além do que já foi dito. Talvez valha à pena refletir sobre quais motivações te colocaram neste caminho espiritual. Muitas vezes uma mudança interior pede uma mudança exterior, de referências e métodos que utilizamos. Existem diferentes caminhos místicos dentro da Arte Sábia que não envolvem a veneração de Deuses, e nem por isso são superficiais do ponto de vista da transformação interior. Será que está na hora de manifestar uma mudança exterior como consequência de um processo interior? Ou aderir aos métodos anteriores continua válido?

Fábio Alves disse...

Meus caminhos são diferentes dos seus, mas algumas dúvidas são parecidas.

É bom ver como você se relaciona com isso.

Grande abraço.

Carolina Martins disse...

O paganismo sempre me atraiu (mas seeeeempre mesmo, desde pequena - o que gerou muitos desentendimentos na minha família, principalmente com minha mãe evangélica) e, apesar de nunca ter nem mesmo montado um altar de verdade, por receio de fazer algo errado e desrespeitar alguma entidade, tento estudá-lo, mas acabo deixando de lado após um tempo - tanto pela dificuldade em estudar sozinha, sem a orientação de alguém iniciado, quanto pela falta de fé e dúvidas que surgem no caminho.
Por diversas vezes, me deparei com este post, mesmo não estando buscando. Talvez tal coincidência signifique algo, talvez não... hahahah, mas sempre termino o texto com a sensação de que eu ainda vou achar meu caminho, se tiver paciência. :)

Cadmo Nereu disse...

TRANSIÇÃO PELO OESTE

Deixo aqui para leitura e apreciação este texto do meu sacerdote, texto ao qual eu fui apresentado no ano de 2004

O momento de trevas do Wiccano ou na Bruxaria Tradicional é assunto muito delicado e não é achado com facilidade em livros, mas vou tentar colaborar assim mesmo comentando sobre o fato. Antes de tudo, nas Tradições Wiccanas esse período é chamado de enfrentar o guardião das sombras. Starhawk no livro: A Dança Cósmica das Feiticeiras; dedica um capitulo a isso (aconselho a leitura desse livro). Nós, chamamos de Fase de Neutralidade; esse momento crucial que acontece com todos os Bruxos e Bruxas, e posso me arriscar a afirmar que esse momento não é exclusivo dos neófitos, mas pode abater-se sobre nós que já estamos nas sendas ancestrais há mais tempo, em qualquer fase de nossas vidas. É um momento difícil que se configura em geral por perdas de coisas que dávamos valor na vida, ou por súbitos problemas que nos assenhoram quando estamos nos firmando na Arte. Já ouvi crendices a respeito desse momento do tipo:

A DEUSA E O DEUS TESTANDO A NOSSA FÉ

Consideramos isso pura bobagem, pois desqualificaria uma das características fundamentais da Divindade, a saber, a onisciência (capacidade de saber de todas as coisas sem limitações do tempo-espaço e que só é inerente ao Supremo ser Criador-Criadora, conforme expressa o livro os Mistérios Wiccanos de Raven Grimassi em sua parte sobre egrégoras e deidades). Mas o que é então o momento de trevas, neutralidade ou a luta com o guardião do portal das sombras?Esse é o momento em que a dúvida se apossa de nós, ou nossos problemas aumentam consideravelmente e parece que quanto mais clamamos aos Deuses, eles fazem vistas grossas. Em geral nessa fase da vida tudo se vira contra nós. Temos problemas de saúde, ou então financeiros, ou na relação afetiva. Nos sentimos traídos por amigos e nem mesmo nossa família nos entende e, por vezes é ela mesma o foco de tudo. É um quadro assustador, só comparado ao inferno de Dante. Não temos ânimo de limpar nossos altares, nossos encantamentos não dão resultados, nossos amigos se afastam, nossa situação financeira pode dar sinais de fracasso, já não mais nos disciplinamos a celebrar de coração as fases lunares, ficamos quase que completamente afastados da Arte. E é aí que primeiro precisamos entender que a Bruxaria hoje é modismo e muitos se aventuram na Arte apenas por querer parecer diferentes, exóticos, ou por querer chamar atenção para suas revoltas e às vezes trazem à nossa Arte ritos estranhos mesclados de processos da Cristandade e de linhas da chamada Magia Negra (magia não tem cor; meus respeitos à fé alheia), misturando egrégoras poderosas que mais cedo ou mais tarde vão chocar-se e trazer sobre tal praticante a imutável lei do retorno triplo. Uma frase dos escritos cristãos serve muito bem para ilustrar o que estou dizendo (que me perdoem vocês o plágio), muitos são chamados e poucos escolhidos; quando chega então esse momento crítico eles abandonam o barco e na maioria das vezes convertem-se a uma religião recheada de fanatismo e tornam-se críticos ferrenhos da Arte que outrora praticavam. Por outro lado há aqueles que são chamados pelos Deuses para reequilibrar sua vida com o passado e ascender na espiral e esses, quando a coisa fica ruim, superam a fase, apesar das dificuldades e aprendem com a experiência. Mas porque esse momento inequivocamente acontece conosco?

Cadmo Nereu disse...

Passamos por essa fase porque quando trilhamos na arte, tomamos contato com a nossa sensibilidade adormecida e ela vai aos poucos sendo despertada e começa a mostrar-nos as coisas como elas são e não como fantasiamos no nosso "Mundo de Bobby" inconsciente. Nós não queríamos enxergar as coisas como elas eram. No entanto a Bruxaria retira o véu da neblina e nos expõe como somos; automaticamente expõe nossa vida real e não a fantasiada; isso é um duro choque para nós, pois nossas falhas nos são apresentadas de forma dura e fria. Mas, se tivermos a coragem de enfrentá-lo é que percebemos como somos e não como pensávamos que éramos. Descobrimo-nos preconceituosos, cheio de doutrinas morais que nada têm a ver com a Velha Religião; vemos nosso egoísmo, nossa preguiça de trabalhar, a nossa incapacidade de administrar nossas finanças e nossas relações amorosas, reconhecemos que fomos covardes; a falsidade que dedicávamos aos amigos ou que eles sustentavam conosco é revelada, tudo isso explode, adoecendo nossa alma e conseqüentemente refletido em nossos corpos. É um encontro com nosso submundo e nesse encontro nos é revelado o que sempre escondemos. Eu só passei a entender isso quando passei por ele e você só o entenderá, se realmente for alguém que está retornando às Sendas Ancestrais. O que posso dizer de minha experiência como o Guardião é que me sinto mais forte depois de tê-lo absorvido.
Um caso ocorrido com uma Bruxa amiga minha servirá para ajudar-me a falar da sensação de enfrentá-lo numa conversa informal durante um jantar com amigos bruxos, perguntei a minha amiga: qual a coisa mais importante na sua vida? - ele respondeu-me: minha família é a coisa mais importante de minha vida, nada é mais importante que ela; isso me chocou bastante, limitei-me a dizer: tenho pena de ti, quando tiveres de enfrentar o guardião das sombras; ela então disse: nunca passarei por isso; eu lhe respondi dizendo: se a própria deusa enfrentou o guardião, pois perderá o que mais amava e teve de descer ao submundo (ao fundo de um problema) e enfrentar o terrível senhor das sombras e absorve-lo em si mesma e torna-se uma com ele, você também passará, mais cedo e mais tarde. E a profecia cumpriu-se, conforme predisse; pouco tempo depois, a família que ela amava mais que tudo, praticamente a expulsou de casa (mora com uma tia) e as pessoas que ela mais amava viraram-lhe as costas e ela enfrentou seu guardião das sombras e sofrendo muito, mas até que finalmente iniciou o processo de absorvê-lo e libertou-se. No entanto, ela quase recuava e não absorvia o seu guardião, chegando ao ponto de achar-se abandonada pelos Deuses e deixar a prática da fé. Mas, renasceu das cinzas como a Fênix renovada, e continua trilhando a estrada que leva ao útero divino, mas agora, pronta para o perigo de um novo Guardião do Portal.

Cadmo Nereu disse...

Nada disso é Azar ou castigo. Esses problemas sempre nos acompanharam e nós íamos empurrando com a barriga ladeira acima, porém, como uma bola de neve, eles crescem cada vez mais e como tudo que sobe, desce (o que é verdade no microcosmos, fatalmente se revela verdade no macrocosmos) eles desabam sobre nós, nos arrebentando. E passamos a compreender o mito da descida da Deusa, que completamente despida, enfrentou nua o submundo... Então passamos a entender que antes de entrarmos junto com a Deusa em sua descida ao Reino do Senhor das Sombras, éramos o pior tipo de cegos: os que não queriam ver. Mas qual é a importância, desse momento para um Bruxo? É durante esse período de trevas e sofrimentos, que percebemos o verdadeiro paralelo e essência de cada uma das três faces da Senhora Suprema (pois sua quarta face é oculta) e de cada um dos momentos da viagem cíclica de seu Filho e Amante. Decepcionados, passamos a entender que a Deusa não é tão somente aquela Barbie de corpo esguio e bem torneado que as imagens dos sites nos apresentam, e nem tampouco a Mãe, que como uma felina, cuida dos filhotes e os protege dos predadores vorazes ou ainda a velha sábia, que igualzinho a nossas avós, nos ensina os chás e encantamentos para cura. É justamente nessa hora, que a Face oculta, daquela que É e Sempre Será, manifesta-se a nós, porém, nem todos suportam encará-la frente-a-frente e se desesperam, principalmente os solitários na Arte, que às vezes, não podem contar em sua cidade com outras Bruxas experientes para lhes auxiliarem (por favor, isso não é uma crítica, ao caminho sagrado do praticante solitário). Essa face da Senhora suprema trás em si uma sensação que não se pode explicar. Talvez a experiência de uma Bruxa amiga nossa que se perdeu do grupo nas profundezas da Gruta do Lapão (Região da Chapada Diamantina-Ba), durante quatro horas, possa esboçar essa sensação (pois sabemos que cada um reage de forma diferente): “quando estava lá, havia uma escuridão que parecia viva; que parecia mover-se, ao apagar a lanterna, sentia que as trevas vinham me abraçar; não lembro o quanto tive medo. Entrei em pânico. Vocês não podem entender o que é estar perdida nas trevas, com um precipício sem fim a poucos metros. Um pavor, um pânico, um verdadeiro inferno, uma escuridão tão densa e tão silenciosa, mesclada ao medo de despencar em uma das valas que existem lá na caverna; gritei desesperada, durante mais de duas horas, e apenas meu eco me respondia. Morcegos voavam e batiam-se em mim. Outros seres típicos das cavernas caíam ou subiam em mim. Eu estava em desespero. Senti-me completamente sozinha e abandonada. Eu sentia que nem mesmo os Deuses estava ali comigo. De repente senti duas presenças ali. Sabia que não eram humanas e nem físicas. Terríveis, gélidas, medonhas, sorrindo sarcasticamente de meu desespero. Suas vozes em minha mente diziam: não suportas nossas presenças, não queria ver-nos, sentir-nos, estamos aqui. E um riso de pavor ecoou em minha cabeça. Apavorei-me e gritei desesperadamente por socorro e nadei. Somente depois de muito esforço compreendi que se tratava da presença de Hécate em seu quarto aspecto, o de rainha Infernal e do Senhor das Sombras. Eu entendi então que estava no reino infernal (meu próprio interior) armada tão somente com meu medo. Sentei-me, abri um circulo e os invoquei. Então a voz dela ecoou em minha alma, como quem dizia: eu estou aqui. Compreendes que precisas morrer e absorver teu medo da morte e da escuridão? Saiba que eu sou negra como as trevas e sou a luz que brilha nas noites no céu. E assim, ali morri no útero dela e renasci uma nova Bruxa, e compreendi o valor de um momento com as trevas. E fui encontrada. quatro horas depois, tranqüila e serena.

Cadmo Nereu disse...

O que esse processo doloroso de Transição Pelo Oeste, pode trazer para os que estão, não se convertendo a wicca, mas retornando ao caminho que sempre seguiram, que é o da Bruxaria?
- Tenho certeza que trará para vocês o que chamamos, em nossa assembléia de primeira magia, ou seja:
;O véu que nos protegia da realidade é rasgado, seus pedaços são lançados ao vento leste, Senhor da mente e da racionalidade. Passamos a vislumbrar os problemas e suas conseqüências, que como covardes psíquicos, teimávamos em esconder. Começamos a não mais agir por impulsos. Partimos para a reflexão, para a comparação, para o experimento. Já não mais nos interessam os efeitos especiais das Bruxas cinematográficas e sim o despertar das mudanças internas, das transformações necessárias ao amadurecimento da Bruxa e questionamos se somos realmente nascidos Bruxos e Bruxas ou apenas estamos seguindo modismos.
E neste momento encontra ecos a manifestação da segunda magia; a separação dos que estão realmente retornando a velhas estradas e daqueles que buscam o modismo (conforme artigo anterior intitulado: Bruxaria, Compromisso, Dogma e Responsabilidade), daqueles que abandonam o caminho sagrado. Percebemos enfim, a dança dos movimentos cíclicos da natureza (como bem aborda o Dr. Roberto Lopes em seu livro: O livro da Bruxa) nos será revelada a ;terceira magia ; que consiste em.
Para sairmos desse momento ruim é preciso nos tornar condutores das mudanças e não conduzidos; que isso é um processo iniciático de morte e renascimento, onde alguns renascem e outros não conseguem renascer (abandonam a arte e cegam-se novamente);.
Os primeiros momentos do despertar das mudanças que certamente nos acompanharão em nossas vidas de bruxos, foram expostos de forma singela, neste artigo, mas nosso objetivo com isto é lembrar, que esse momento doloroso é enfrentado por cada indivíduo de modo pessoal, os buscadores passam a entender o valor dessa mágica experiência e a compreender que o que é ruim para uns, pode ser bom para outros de alguma forma. Durante esse período, devemos aprender enfrentar a realidade e então compreender que não devemos nos acovardar e nem continuarmos esperando que as coisas melhorem, devemos tomar as rédeas da situação e começar o processo de mudança (conforme nos mostra o Livro O Guerreiro Wicca) passando por uma morte espiritual e renascendo completamente vazios para que a Deusa e o Deus criem e moldem a partir daí nossas vidas, pois todas as coisas vieram do vazio e no vazio do nada reside a plenitude da criação.

Paula Mariá disse...

Querido, como posso te chamar?

Estou muito feliz em ter conhecido seu blog recentemente. Sou jornalista, astróloga e estudante de ciências ocultas há alguns anos e é um prazer encontrar espaços seguros de troca, como aqui. Conheci o blog ontem e já li tantos textos que perdi a conta hahaha

Perdi minha fé no final do ano passado, quando vi a morte muito de perto. Levou minhas amigas e parecia me perseguir em todo lugar. Parei de olhar para o céu. Parei de tirar tarot (até porque só saia A Morte hahaha ai, as lições das quais tentamos fugir... não conseguimos!), fiquei desesperançosa, fui assolada por uma dor de cabeça infindável e como não tomo remédios, precisei resolver todo o meu espírito para que ela me deixasse.

Hoje estou bem e vejo como a descrença torna tudo tão mais dolorido, mas tudo é ciclo. Somos suspeitos, estamos sujeitos, vai saber no que acreditarei amanhã? Sei que, por hora, estamos alinhados, eu, minha fé e os astros.

Mais uma vez, obrigada pelo conteúdo do blog. Estou fascinada!

Thais Berwanger disse...

Linda sua escrita!

ARQUEIA DO GRAAL disse...

pelo jeito, se perder no caminho e comum.. achei que so acontecia comigo ( bem egocentrica ). Essa dica ta valendo ouro, muitos estao se perdendo, principalmente, prq os proprios sacerdotes e sacerdotisas, estao vendidos ao `pop`... mas legal ler isso e saber que tem volta.. pensei que era o fim

Linha na Terra disse...

Seria esse um exemplo de uma ordalia pela qual o autor teria passado?

Mary castro ribeiro disse...

Me identifico com seu momento....h