quinta-feira, 13 de novembro de 2014

"Nunca esqueça quem você é".

Sacerdotisa de Delfos, de
John Collier
A Bruxaria é, antes de mais nada, um Caminho. Uma Jornada a ser empreendida. E sendo um Caminho, é como todos os outros que, no final das contas, leva ao único lugar possível: o colo da Sabedoria. 

No entanto, ainda que seja um caminho progressivo, não é como uma reta ascendente em direção ao infinito. A Estrada Bruxa é uma trilha a ser percorrida ora de forma circular, ora em forma de espiral, ao longo de uma montanha. Você em certos momentos tem de subir, e pra conseguir fazê-lo, precisa deixar pra trás o peso daquilo que não é mais útil. Em outras ocasiões tem de descer, e pra baixo todo santo ajuda. Literalmente, aliás. É uma Jornada percorrida através de conquistas ao mesmo tempo compartilhadas de abandonos e desapegos.

E o Caminho é longo e cheio de armadilhas. Uma delas são os braços do Rio Lete, também conhecido como o Rio do Esquecimento. São águas que vertem direto do Submundo, e é dessa nascente que os mortos bebem antes de reencarnar. Todos que vivem, tiveram de, antes de retornar ao meio daqueles que amam, com o perdão do trocadilho, “beber pra esquecer”. Do contrário, não poderíamos prosseguir com nossas novas vidas e não teríamos espaço para novas memórias e novas experiências. O que poucos sabem é que esse rio não se restringe ao reino de Hades, mas ele sempre chega à superfície, e metamorfoseado de água profana, bebemos dele mesmo sem saber. Trata-se de uma água extremamente refrescante, límpida, sedutora. Possui outros nomes: também é chamada Descanso ou Conforto.

Muitos mortais não reconhecem-na, e é por isso que, fazendo uso descuidado desse fluído, o homem profano não sabe quem é. E não sabendo quem é, não sabe o que procurar porque não vai reconhecer quando encontrar. Mas esse é um privilégio do qual a Bruxa não pode ser brindada. A Bruxa não pode esquecer de quem é. Ao longo da sua Trajetória, pode fazer uso dessa bebida (Sagrada e Maldita), mas somente o suficiente para esquecer-se daquilo que pesa as costas e atrapalha o seu caminho. Jamais em excesso. Jamais beber do Descanso por muito tempo, jamais refrescar-se através do Conforto em demasia. Ela deve cuidar para não cair nessa armadilha. O Bruxo é sempre um Peregrino. Sempre. 
O Mundo, do tarô Waite-Smith

E quem a Bruxa é? Ela pode ser muitas coisas. Mas antes de tudo, ela não é nada. É apenas um amontoado de poeira de Universo (ainda que consciente disso). E que, apesar da sua casca de efemeridade, possui a semente da Eternidade. É por isso que ela tem poder suficiente para transmutar: a si e aos outros ao seu redor. A Bruxa é uma coisa que sabe que é movida pela mesma força que impulsiona o movimento dos planetas e o crescimento das plantas. A Bruxa não é cega, e seus braços alcançam o infinito. Nesse sentido, a Bruxa é sempre rica. Quando ela bebe em demasia das águas do Rio Lete, ela também perde parte da sua imortalidade: ela se torna uma pessoa comum: como aquelas que são donas do Universo, mas que também são vítimas do “Destino”, que estão separadas da natureza que as cerca, e que, por isso, estão limitadas a uma existência que é apenas física, material, carnal e corpórea. Os Esquecidos só vivem em um mundo, em uma realidade. Porque quando vêem os outros mundos, na verdade não os reconhecem.

A Bruxaria é, antes de mais nada, um Caminho. Uma Jornada a ser empreendida. E sendo um Caminho, é como todos os outros que, no final das contas, leva ao único lugar possível: o colo da Sabedoria. No entanto, uma reflexão: se nosso caminho é circular, a Sabedoria mais do que ser o ponto de chegada de um caminho a ser percorrido, ela também precisa ser o ponto de partida.

“Nunca esqueça quem você é”, disseram Eles. O único pecado de um Bruxo é o esquecimento. O esquecimento da sua natureza, da sua missão, do seu potencial. 


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4 comentários:

Anônimo disse...

Gostei muito do texto! Expandindo as metáforas sobre o caminho, eu ainda diria que a Bruxa, algumas vezes, segue por caminhos já demarcados. Outras vezes a Bruxa caminha pelos lugares que ninguém ousou, desbravando e explorando novas direções. Quando a Bruxa encontra uma encruzilhada ela pode sentar e meditar no centro, refletindo sobre cada um dos caminhos disponíveis. Há, também, a possibilidade de encontrar cavernas e bosques muito escuros, onde a Bruxa conhece demônios. E isso me faz pensar que a Bruxa é consciente de ser o eixo dos seus mundos, onde atua como co-criadora do universo.

Bruna Guimarães disse...

Adorando este blog.

Aline Pandora disse...

Isso não é um texto, é uma obra de arte!
As obras de arte nos enxergam, nos escutam, nos leem... e não o contrário. Seus textos são obras de arte, Odir, que sempre tem a capacidade extraordinária de me lerem e me agradarem :)
Todo bruxo que é bruxo já passou inúmeras vezes pelo Rio Lete (encantador!) e compreende exatamente todas as palavras ditas por ti no texto acima. É de encher os olhos.
Mais uma vez mas não exageradamente, parabéns!
Um grande beijo.

proibida disse...

Showww