segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

Como saber se estamos no caminho (espiritual) certo?

Oferenda, de Alma-Tadema.
Na verdade não sabemos. Gosto sempre de pensar minhas escolhas – sejam elas espirituais ou não – como apostas. Então o exercício da minha espiritualidade também é uma aposta. É uma aposta no sentido de que eu procuro praticar sempre o que penso ser melhor para mim mesmo e também para os outros (mas assumo a possibilidade de que esteja fazendo errado, apesar da intenção positiva). É aposta no sentido de que, mesmo acreditando na vida após a morte, assumo a possibilidade de que depois do “fechar os olhos”, tudo também se esvaneça no tempo e no espaço, não havendo nenhum tipo de consciência depois disso. Vivemos em um tempo em que a história já nos mostrou que não é possível convivermos com verdades absolutas. Tudo está fadado ao questionamento, à relativização, à contradição e – por que não? – também ao esquecimento e ao desaparecimento. Inclusive nossas convicções religiosas. Então acredito ser difícil pensar a espiritualidade a nível de “futuro”: o que receberemos em retorno, o que nos aguarda, para onde vamos, em qual lugar seremos agraciados. Acho importante pensar a espiritualidade a nível do aqui e do agora, porque a garantia de estarmos vivos e no que entendemos por “presente” é uma das poucas garantias que temos. E olhe lá.

Alguém disse certa vez que a religião verdadeira é aquela que te faz uma pessoa melhor. Eu diria que a espiritualidade “certa” é aquela que nos dá respostas. Mas não respostas absolutas, mas respostas conscientes da sua efemeridade, das suas limitações. Respostas temporárias, suscetíveis à correção do erro. Quais respostas o paganismo me dá? E o que eu faço com essas respostas? Essas são algumas perguntas que eu constantemente me faço. E nem sempre tenho resposta. Aliás, quase nunca eu as tenho. O que não me impede de continuar a fazê-las.

Então deixando de lado a ideia espírita de “evolução” (aquela evolução linear, crescente, que ruma a uma “perfeição”) acho sempre importante pensar a nível de transformação: o que eu faço com a minha espiritualidade? Se ela provoca mudanças na minha forma de ver o mundo, como exatamente eu mudei as minhas atitudes?

O Louco do antigo tarô
de Marselha
Apostar no paganismo como espiritualidade é ter acesso a uma imensidão de possibilidades: pensar que o Divino se manifesta de diferentes formas para diferentes pessoas é antes de mais nada um exercício de tolerância. Tolerância para com a realidade das outras pessoas, tolerância para com as verdades das outras pessoas e com os processos individuais das outras pessoas. Apostar no paganismo como um caminho de vida é também um processo de supressão do Ego: não somos muito mais do que um pedaço, um fio de uma teia infinita, entrelaçada a tantas e tantas outras. Ser pagão é ser muitas vezes humilde.

Apostar no ofício da bruxaria como uma prática constante na nossa Jornada penso ser, automaticamente, acreditar em um mundo em que (quase) tudo é suscetível de mudança e passível de intervenção. Assim como o dia é frequentemente substituído pela noite e o verão pelo inverno, a Bruxa também sabe que pode (e deve) transformar infelicidade em felicidade. Ser um Bruxo é ter consciência das nossas habilidades de atuação no(s) mundo(s) que nos rodeia(m). As Crianças da Bruxaria sabem que seus braços alcançam o infinito.

Como saber, então, se estamos no caminho espiritual correto? Como eu já disse, acho difícil sabermos exatamente. Mas existem pistas interessantes que podemos seguir: uma delas é observarmos o que existe ao nosso redor.  Assim como o lugar “certo” do alecrim é uma terra escura e um lugar bastante exposto ao sol, é por isso que ele cresce e nos abençoa com seu aroma. O cheiro do alecrim não existe na sombra e nem vem areia seca. Outras coisas vêm de lá, possivelmente tão perfumadas quanto. Mas não o alecrim. Olhe ao seu redor e veja o que você nutre e o que, em resposta, você exala. Transplante-se, se for necessário. Nossas pernas também alcançam o infinito. 

Feliz 2015 d.C.! 

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