quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

A hora de desarrumar o altar.

A Noite e o Sono, de Evelyn de Morgan, 1878. 
Geralmente tudo termina na hora em que eu devolvo o punhal à bainha: depois das despedidas e dos agradecimentos vêm o acender das luzes, o recolhimento e o apagar das velas, a recolocação dos móveis em seus devidos lugares e a escolha de uma camiseta limpa pra dormir. Pelo menos pra mim, nesse caso, sempre um novo ritual se inicia: um outro muito mais sutil, mais introspectivo; quase sempre silencioso, e no entanto, profundamente poderoso.

O arrastar da cama, o passar da vassoura e o recolhimento de possíveis resquícios de cinza de incenso ou de cera de vela no chão são passos de uma “rotina” ritual que sempre me fazem pensar. São atos que marcam uma transição definitiva não só entre sagrado e profano, mas mais do que isso, entre a sabedoria e a ignorância, entre o que está “por trás” e o que está aparente, entre o que foi e entre o que está. Certa vez eu li em algum lugar que o ritual já começa com o despir-se antes de entrar no Círculo, ou mesmo na hora do banho em preparação. Isso é uma verdade, mas eu não lembro de já ter lido em algum lugar que o ritual, mesmo depois das despedidas tradicionais, das danças, das ofertas, da comida e da bebida, mesmo depois do Athame mais uma vez embainhado e guardado, que mesmo depois disso tudo, na verdade ele ainda continua.

O ato de camuflar o altar de volta ao seu lugar na estante e de recolher todos os instrumentos e deixar somente “visível” aquilo que não levantaria suspeita, bem como o de colocar a cama na sua posição original ou de jogar pra baixo dela a caixa onde eu guardo esses mesmos instrumentos, sempre foi algo que pareceu reafirmar, pelo menos pra mim, o caráter da Bruxaria não só nosso saber como algo sempre transmitido “à margem”, mas que além de tratar-se de um ofício de transformação, “iluminador” e “esclarecedor”, também ele tem a sua natureza mascaradora, ocultadora, aqui no papel do Bruxo como alguém que “vela” (no sentido oposto ao de “desvelar”). Que esconde não puramente para esconder, mas que oculta no sentido de proteger.

A Roda da Fortuna. 
A Bruxa sempre traz sua verdade à quem a procura: ela esclarece, ela aponta, ela oferece caminhos. Mas o faz somente àquele que, aos seus olhos, fez por merecer. Aos profanos, nós escondemos e ocultamos não apenas nossas ferramentas de trabalho, mas nós próprios nos metamorfoseamos em pessoas “normais” no dia-a-dia. Assim como nossos Deuses mascaram-se, geração após geração, para que assim possamos reconhecê-los (trata-se de um Mistério), da mesma forma nós também mascaramo-nos para que possamos sobreviver. Uma das nossas primeiras lições: manter um livro “das sombras” que não possui esse nome gratuitamente.

Se conseguimos transformar um quarto comum em um templo extraordinário (no sentido literal da palavra), e depois fazê-lo voltar a ser um quarto normal, isso deve servir-nos como um lembrete constante e importante: nem tudo o que parece é. Tudo pode ser uma grande ilusão. Assim como como uma ingênua estante de livros pode esconder um altar, assim como um isqueiro pode camuflar um fogo ancestral ou mesmo uma colher de pau na cozinha pode esconder um bastão sagrado, da mesma forma ninguém poderia dizer que aquela pessoa que você encontra todos os dias no caminho do trabalho também pode dançar, à noite, a deuses supostamente esquecidos nas brumas do tempo: nem tudo o que parece é. Assim como os próprios Deuses se mascaram, assim como nós próprios também nos mascaramos, o que nos garante o que é real ou o que é ilusório?

É por isso que eu acho interessante pensarmos a Bruxa, antes de mais nada, como uma Buscadora. Ou seria todo Buscador, antes de mais nada, um Bruxo? Afinal, nem tudo o que parece é.

4 comentários:

Andreas Phoinix disse...

Texto perfeito. Estava pensando nisso depois do ritual de Imbolc. O ritual só termina mesmo quando a sala é novamente uma sala e o altar perde aquele mistério nque ganha durante algum ritual. (Embora Afrodite shine like a diamond no meu altar.)

Gabriel Vitorino disse...

O texto chegou na hora certa para mim

Emanoel Rodrigues disse...

Texto de uma perfeição ímpar. Parabéns!

Fabiane Machado disse...

Texto magnifico perfeito.