quinta-feira, 7 de maio de 2015

O que legitima uma Tradição ou um Coven?


Oferenda ao Deus Pã, de Pedro Weingärtner.

“O homem é um animal social” já dizia Aristóteles. Isso quer dizer que o nosso instinto ao grupo e ao coletivo são naturais. Aristóteles dizia, inclusive, que é na realização do social que o homem, como indivíduo, conseguia florescer completamente. Aqui eu já disse uma vez que, na verdade, Bruxos “solitários” não existem. Porque mesmo aqueles que praticam na ausência de um Coven ou sob o suporte de uma Tradição específica, ainda assim, eles não estão sozinhos. Eles podem ser as únicas pessoas vivas a fechar e abrir um Círculo naquela sala silenciosa durante a madrugada, mas ele não saberia como fazê-lo sem conversar com outros Feiticeiros antes, ou mesmo sem ler o que já foi escrito sobre o assunto. Isso sem falar na Companhia Invisível que sempre lhe acompanha. Nenhum Feiticeiro está só. Todo Bruxo vive, de alguma forma, em “sociedade”. Mesmo aqueles que se isolam do mundo profano, ainda assim, vivem em comunhão com os seus Espíritos. 

Mas no caso daqueles que, por sorte, estão cercados de irmãos e irmãs dentro de um Círculo? Por que existem tantas divergências entre grupos, Covens, Círculos e Tradições? A história da Bruxaria, em especial no séc. XX, está profundamente marcada por polêmicas nesse sentido: grupos que questionam a legitimidade uns dos outros, Tradições que questionam as Iniciações de supostos membros, e Círculos e “autoridades” que se auto-elegem para carimbar o que é legítimo ou não no que diz respeito ao Ofício alheio. Dificilmente nós encontraremos um grande “nome” da Bruxaria que não esteja envolto neste tipo de polêmica. 

Sabá, de Max Waldman (1970).
Ao longo dos últimos tempos, ao observar esse tipo de coisa, fui provocado pela seguinte pergunta: o que, de fato, portanto, legitima um Coven, um grupo, ou uma Tradição qualquer? Minha primeira conclusão é a de que, de fato, não são os títulos. No Brasil, por exemplo, estamos vendo um colecionador de títulos, graus e Iniciações acabando em um púlpito evangélico. Essa é a maior prova de que “currículo” não faz Bruxo. Experiências acumuladas em Ordens esotéricas podem, sem dúvida alguma, proporcionar um aprendizado intelectual e espiritual para alguém. Mas certamente isso não é critério para atestar sabedoria ou legitimidade. 

Também vejo pessoas que, por anos e anos, davam de ombros aos grupos “tradicionais”, mas logo após terem recebido uma Iniciação que por tanto tempo desprezaram, passaram a cuspir no prato que comeram ao dizer que, por exemplo, aqueles que continuavam fazendo o que eles por tantos anos faziam, agora já não podem mais dividir o mesmo nome desses novos-bruxos, esnobes e mal agradecidos. Que são tão bons, mas tão bons, que tudo o que sabem fazer é subir no palanque e gritar a todos sobre o quanto eles são bons. 

Meus maiores professores são, ou pessoas do meio “público” que gradualmente estão se afastando em direção ao “armário”, ou pessoas que, de certa forma, sempre fizeram vistas grossas ao paganismo do palanque. Aprendi e aprendo cada vez mais com eles. Porque ao invés de questionar as verdades alheias, eles estão se esforçando para lapidar as suas próprias. Me parece um tempo gasto de forma muito mais apropriada. 

Sabá, de William Mortensen.
O que eles me ensinaram é que o que verdadeiramente legitima uma Tradição ou um Coven não são os nomes ou títulos por trás desses grupos. Mas sim o fato deles cumprirem a sua função: ensinar e aprender com os novos Feiticeiros. E esse propósito se restringe aos membros em si. Se o grupo A não concorda com a prática do grupo B, isso não diz respeito ao grupo A. Logo, não há o que ser falado. 

Se você é solitário, procure pessoas e grupos que te inspirem. Que te provoquem a ser melhor do que é. Procure pessoas que tenham o que ensinar, que te façam pensar, que te tirem da zona de conforto. Não procure por aceitação nem por carimbos. Porque a Jornada Bruxa é feita de Bênçãos, mas também de Maldições. 

Se você já é membro de uma Tradição, pense no seu grupo como uma escola. Você sente que ainda tem a aprender com eles? Sente que tem algo para ensinar? Sente que esse espaço é um lugar propício para o crescimento e fértil pro seu desenvolvimento espiritual e intelectual? Então você está no lugar certo. 

Ao contrário do que muitos dizem, carimbos, certificados e linhagens não são as raízes de um grupo. Isso tudo é a casca, que protege e embeleza, mas que não sustenta por si só. 

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13 comentários:

Leo Maciel disse...

Gostei do texto Odir Fontoura.

Fortuna Caelestis disse...

Assim como a Serpente sempre muda de pele, se renova enquanto sua essência continua a mesma, assim são os Feiticeiros e Peregrinos das Velhas Artes Arcanas...

Álfur Avalach disse...

adorei o texto, muito inteligente!!!

Rafael Dantas disse...

Gostei do site e parabéns pelo texto.
Muito bom!

Wakanda Layuth Mahtab disse...

Belíssimo texto...

Agathos disse...

Muito bom! Me identifiquei.

Thiago Mathouny Quintella disse...

Muito bom!!!

Mikka Capella disse...

Acho que raiz é a palavra. Se há algo que legitime alguma coisa, é a raiz. Mas quem tem raiz e sabe o que faz, não tem preocupação nem tempo pra julgar o que acontece na casa dos outros. Agora, é um meio de pessoas muito desorientadas. Desorientadas no sentido de quererem seguir uma religião pagã e não terem por onde começar. A Internet, infelizmente, não é boa professora. Neste sentido, há um problema com o que andam chamando de "tradição" por aí.

Maurício de Oliveira Sirino disse...

Adorei o texto!!! Excelente em todos os sentidos...

Claudia Arthemise disse...

Muito bom Odir, concordo plenamente.

Fábio Alves disse...

Onde houver pessoas reunidas, ainda mais envolvendo religião, sempre haverá vaidades.

Parabéns pelo texto.

Cadmo Nereu disse...

Belíssimo texto Odir.
Parabéns pela reflexão que o fez chegar até tal ponto.
Nada muito grande a comentar a não ser parabens.

Glauco Gomes disse...

Odir Fontoura, eu gostei muito do seu texto, ele diz muito do que penso relação às tradições. Se usassem seu tempo para o auto-aperfeiçoamento ao invés de criticar a veracidade das crenças e práticas alheias, teríamos mais igualdade e respeito entre nós pagãos.