sexta-feira, 3 de julho de 2015

As verdades em Salem (Parte 2)




No post anterior (veja aqui se você ainda não leu), falamos sobre os diversos elementos de Feitiçaria que estão presentes na série, bem como as relações entre Sangue, Sexo e Poder que, se por um lado permeiam a ficção como importantes recursos para chamar a atenção da audiência, em outra mão, também não estão ausentes no que estamos chamando aqui da Bruxaria “real” que praticamos. Também foi falado sobre as estruturas dos Encantamentos que são recitados no seriado e os “ecos” de realidade de tais rituais. 

Também foi questionado sobre quem seria, de fato, o Deus das bruxas, e se aquela divindade retratada em Salem teria alguma conexão com a realidade. Alguns aspectos relacionados à Iniciação, à transmissão do Saber Bruxo e sobre os Familiares também foram abordados. Por fim, as chamadas “Bruxas de Essex” foram o último ponto a ser abordado na primeira postagem desta sequência. Por ora, seguimos com os trabalhos. 

Ainda contém spoilers!


Sobre as “Marcas” Bruxas 


No oitavo episódio da primeira temporada, "Departures", o inquisidor Increase Mather obriga seu filho, o também pastor, Cotton Mather, a fazer um exame de reconhecimento em uma das acusadas de bruxaria, a saber, sua amante. Trata-se de um procedimento conhecido dentre os estudiosos e conhecedores dos manuais de Inquisição medievais e modernos. Presente, por exemplo, no famoso Malleus Malleficarum, o procedimento que visa encontrar a chamada Marca do Diabo parte do princípio de que qualquer marca estranha, mancha, sinal ou verruga, poderia servir como prova de que a acusada pertenceria a um grupo de bruxas. Em tese, seria por esta marca que a feiticeira alimentaria os seus Familiares com seu próprio sangue. 

Ao longo do seriado, em diferentes episódios, isto pode ser observado quando Mary, Tituba e Anne Hale alimentam seus familiares, respectivamente um sapo, uma aranha e um rato, com gotas do seu sangue. É verdade que muitos Feiticeiros alimentam, em uma ou outra ocasião, seus animais familiares com sangue, mas isso não ocorre, necessariamente, com o animal bebendo diretamente do corpo da Bruxa. 

É interessante notar, no entanto, que muitas vezes a "Marca" Bruxa não é necessariamente algo físico, mas diferente disso, pode ser como um sinal ou uma espécie de "selo" mágico quando, por exemplo, nos rituais de Iniciação da Wicca, a cada elevação de grau, o Iniciado é "marcado" pelo símbolo respectivo do seu grau (pode ser um pentagrama normal, um pentagrama ou invertido ou um pentagrama "coroado"). 

Dentro de diversos ramos da chamada Bruxaria “Tradicional” a Marca da Bruxa ou Marca do Diabo (Stigmata Diaboli) é uma cicatriz feita em alguma parte do corpo da bruxa, normalmente no formato de uma pequena cruz, durante a cerimônia de admissão da nova bruxa dentro de um Coven ou Congregação. Essa Marca tradicionalmente é feita pelo Magister, o líder masculino de um grupo, que por muitas vezes é ele próprio chamado de “o Diabo”. Variações no formato e local da marcação existem, porém o sentido é o mesmo, marcar aquela pessoa, como uma forma de empoderamento, para que à partir daquele momento ela seja reconhecida como parte do grupo. 

Uma outra marca, muitas vezes confundida com a Marca da Bruxa/do Diabo, comum em ramos Cainitas da Arte é a “Marca de Caim”. A Marca de Caim é uma referência à Maldição que Deus (deus este, visto pelo bruxos e também por muitas seitas gnósticas como, na verdade, o Demiurgo) colocou sobre Caim e sua descendência. Marcado, tido como pária na sociedade, marginalizado e exilado, ao mesmo tempo essa Marca indica que Caim não poderia ser morto por ninguém. A Marca de Caim dentro desses ramos tradicionais é uma metáfora, e como tal simbólica, para o mistério conhecido como “Sangue-Bruxo”; portar a Marca de Caim é carregar em suas veias o Sangue-Bruxo, o sangue mestiço entre a Raça do Homem e a Raça das Fadas. Essa Marca é vista e reconhecida apenas por aqueles que também a carregam, e cada bruxo ou grupo detém seus métodos para identificá-la.

Objetos e instrumentos: As Máscaras 


Ainda no primeiro episódio, "The Vow" a cena de um sabá repleto de mascarados chama nossa atenção. O elemento da máscara é profundamente simbólico dentre os diferentes ramos da Bruxaria. Em um sentido prático, indo ao encontro do que Gardner chama de palingenesia no seu livro A Bruxaria Hoje, a prática de "mascarar-se" sob uma perspectiva Bruxa está relacionada ao intuito de "vestir" uma outra personalidade, de "nascer" novamente, mas sob outra forma. Ao usar, por exemplo, uma máscara ritualística de um animal selvagem, como a de um gamo (imagens), por exemplo, o Bruxo invoca para dentro de si aspectos da natureza deste animal: a força, a rapidez, a virilidade, ou a fertilidade. Ao mascarar-se como uma coruja, uma Feiticeira pode reivindicar para si a natureza da noite, da visão, da esperteza ou da habilidade de camuflar-se. 

Quando a Bruxa coloca a máscara de uma Divindade, da mesma forma, ela pode tanto estar querendo repetir o mito, ou a Jornada daquele Deus ou Deusa, quanto também se mostrar favorável para receber as benesses daquela deidade. Trata-se, portanto, de um costume tradicional e que embeleza muitos rituais. 



Também é importante ilustrar que muitos Bruxos tendem a ver na concepção da "máscara" uma ideia metafísica para compreender a própria manifestação dos Deuses para os humanos. Por exemplo, muitos Feiticeiros tendem a ver não apenas os santos católicos, mas também os próprios deuses pagãos, não como entidades em si, mas na verdade, como máscaras de algo superior. Dessa forma, muitas Bruxas não reverenciam, necessariamente, Diana, Aradia, ou São Pedro, mas sim a Coisa que está por trás daqueles ícones. Nesse sentido, muitas não vêem problemas em dividir seus altares com "máscaras" de diferentes cultos, desde que isso reforce os seus Intentos. 

O Livro das Sombras


O uso de livros contendo as anotações das bruxas fica evidente na segunda temporada quando Mary dá um livro em branco para Anne e lhe explica sobre seu uso.

O nome adotado na série para o grimoire das bruxas é bem conhecido dentre os neopagãos: “Livro das Sombras”. O termo é moderno, utilizado inicialmente por Gerald Gardner para intitular o grimoire de ritos e procedimentos de sua Tradição bruxa, porém o conceito e uso deste tipo de livro é antigo, independente do nome que se dê ao mesmo. 

Um grimoire é, como a própria palavra sugere, uma gramática, da mesma forma que uma gramática de um idioma é um conjunto de regras que tem por finalidade orientar e regular o uso de uma língua, estabelecendo um padrão de escrita e fala baseado em diversos critérios linguísticos, uma gramática de magia nada mais é do que um livro contendo regras, métodos e exemplos com a finalidade de orientar as ações mágicas, se baseando nos critérios intrínsecos da Arte Mágica, como correspondências, analogias, utilização de instrumentos, descrição de rituais, etc.

Um termo muito comum para esses livros de magia entre as bruxas é “Livro Negro”, um tanto quanto mais abrangente que “O Livro das Sombras”, visto que este último pertence basicamente a Bruxaria Wiccana.

É interessante que, na série, Anne antes de começar a escrever em seu livro, o assinou com seu próprio sangue. Isso é parte comum e integrante da Tradição das bruxas, o livro é assinado com o próprio sangue, primeiramente para estabelecer o elo entre o praticante e seu próprio livro e, secundariamente, como uma alusão ao “Pacto” estabelecido entre a bruxa e seus deuses, demônios, Coven, Clã e Família. É muito comum também, adicionar algumas gotas do próprio sangue na tinta que será utilizada para escrever o restante do “Livro Negro”.

Tais livros, para muitos bruxos, não são apenas um “Livro de Magia”, mas ao contrário, um “Livro Mágico”; o próprio livro contém uma magia inerente a ele, e por muitas vezes é guardado por um daemon ou espírito tutelar, e somente se a pessoa tiver a permissão e autorização deste espírito, ela conseguirá de fato ler (e entender) o que lá está escrito. Um exemplo disso é o grimoire The Azoëtia – A Grimoire of the Sabbatic Craft de Andrew Chumbley; é dito que qualquer pessoa, obviamente tendo o livro em mãos, poderá o ler, porém somente aqueles que obtém o guia e autorização de Sethos, o daemon do livro, conseguirão ler além e compreender exatamente as palavras daquele tomo. Um antigo ditado diz:


“A Magia se auto protege”.

O Malum


Este é sem dúvida, um dos objetos mais interessantes que aparece na série. Uma maçã, esculpida com diversos símbolos, e que é de fato um pequeno Vaso, ou recipiente, que contém a praga que as bruxas libertam ao final da primeira temporada. É inclusive, o principal objeto de foco delas durante a primeira parte do Grand Rite.

Vasos e recipientes são extremamente comuns dentro da Bruxaria, assim como em outros cultos de orientação feiticeira, como o Vodou. Eles servem para abrigar espíritos, familiares, e determinados poderes que em algum momento serão liberados (da mesma forma como a praga liberada na série).

Em Salem o Malum é uma Maçã, o que nos leva obviamente ao Fruto do Conhecimento do Bem e do Mal do mito Edênico. A Bíblia não nos diz exatamente qual era esse fruto, mas a tradição popular atribui o mesmo a uma maçã – fruto sagrado para Vênus. Há também uma outra “maçã das bruxas”, o fruto da planta venenosa conhecida como Datura. Tal fruto se desenvolve na haste da flor da Datura e é extremamente alucinógeno e um veneno muito perigoso. Esta planta é creditada como uma das quais fazem parte dos famosos Unguenti Sabbati e dos Vinum Sabbati, os alucinógenos que levariam a bruxa ao Voo Noturno rumo ao Verdadeiro Sabbat.


É sabido que para diversas vertentes da Arte o mito Edênico é uma tradução do próprio atavismo de onde flui o “Sangue-Bruxo”, onde a Serpente, vindo como uma libertadora da opressão do Deus/Demiurgo, permite à primeira mulher e ao primeiro homem que comam do fruto e, portanto, se tornarem sábios como os deuses. É interessante que essa mesma visão compartilhada por muitos bruxos é dada na série quando a personagem da Condessa Marlburg cita, no episódio "Midnight Never Come" da segunda temporada, as seguintes palavras sobre a Serpente e a Árvore do Conhecimento:

“A primeira e melhor mulher, nossa mãe Eva, seguiu a Serpente. Desde então, homens mesquinhos têm nos atormentado. Já se perguntou que tipo de deus planta uma árvore carregada com o fruto do conhecimento, apenas para proibir a sua criação de partilhá-lo?”

Como dito, vasos e recipientes são largamente utilizados na Arte Bruxa para conter, guardar, manter, espíritos e poderes. O Vaso do Dragão, do ciclo de rituais contido no The Dragon-Book of Essex, é um exemplo. Ele é a própria manifestação da Deidade Draconiana na matéria, e como um vaso contém diversos elementos tanto materiais quanto sutis, é o ponto-focal e principal instrumento da Grande Obra do Feiticeiro Draconista; do mesmo modo o Malum se apresenta para as bruxas da série Salem, como o ponto-focal principal da primeira parte do Grand Rite.

Outros objetos que aparecem na série e que fazem parte, de fato, da Bruxaria “real” incluem, por exemplo, o grande falo de madeira que Tituba utiliza em Mary para que esta  atinja o Voo Noturno. Em certa ocasião, quando Increase Mather é levado a Salem, vemos que o capitão do navio traz consigo uma corda com um nó que "amarrava" os ventos das tempestades (aqui a analogia das cordas é uma clara referência a magia com nós). O astrolábio de Mary que indica a chegada do cometa na segunda temporada é outro, o que faz menção ao ofício da Astrologia, muito comumente estudado entre os praticantes da Arte verdadeira. Os exemplos são múltiplos. 

Os Cunning Men 


Cunning Men e Wise Women são termos designados para os homens e mulheres da Inglaterra conhecedores de diversas habilidades tidas como mágicas e que ofereciam seus serviços para a comunidade. São extremamente similares as Benzedeiras do Brasil e as Benedicaria da Itália. Cunning Man significa literalmente “Homem Astuto” e Wise Woman, “Mulher Sábia”. Na Cornualha o termo utilizado para estes sábios é Pellar, e como tal, uma espécie de exorcista popular. Muitos bruxos atualmente clamam que parte de seu conhecimento e sabedoria provém dos exímios Cunning Men  e Wise Women dos séculos XVII, XVIII e XIX.

O personagem Petrus se apresenta como um Cunning Man, e de acordo com suas próprias palavras ao ser indagado por John Alden sobre ele “estar do lado das bruxas”, ele diz:


“Um círculo não contém lados”.

Petrus é dotado da Segunda Visão e tem uma forte conexão com os animais da floresta onde vive. Interessante também é sua vida de eremita, isolado da sociedade comum.


Um dos mais famosos Cunning Man da região de Essex, Inglaterra, foi James Murrell (1785 – 1860). Ele foi um mago popular profissional, que viveu grande parte de sua vida na cidade de Hadleigh, Essex, e de acordo com o historiador Ronald Hutton, Murrell foi o “mais célebre cunning man em toda a Inglaterra meridional durante o século XIX”. Muitos acreditam que George Pickingill, dito bruxo e cunning man, que fundou nove covens pela Inglaterra, um dos quais seria o coven com quem Gerald Gardner travou contato, na verdade não era um cunning man e nem ao menos praticava magia; os acadêmicos e historiadores acreditam que toda a lenda que se gerou ao redor de Pickingill deve ser, na realidade, creditada a James Murrell.

É dito que Murrell clamava podia exorcizar maus espíritos e destruir bruxas (lembrando que bruxas sempre foram vistas como os agentes maléficos - igualmente como no caso dos Benandanti e Malandanti da Itália, conforme apresentado na obra de Carlo Ginzburg "Os Andarilhos do Bem"). É a ele também creditado o poder de restaurar uma propriedade perdida ao seu dono. Ele era também astrólogo, herbalista e curandeiro de animais. Ele possuía uma vasta biblioteca de textos mágicos, que incluíam trabalhos de astrologia e astronomia, textos médicos e textos de conjurações, além de diversas anotações pessoais. James Murrell ficou conhecido no sudeste de Essex como o “Mestre do Diabo”.

A História conta sobre diversos desses Homens Astutos e Mulheres Sábias, utilizamos aqui Murrell como exemplo por ser ele o mais conhecido Cunning Man da Inglaterra e aquele a quem os pesquisadores e historiadores conseguiram provar documentalmente sua existência e seu ofício como exorcista popular e mago.

O Voo das Bruxas


Recorrente não apenas na série, mas na ficção como um todo e também no folclore de diversas partes do mundo, uma das características mais atribuídas às bruxas é a capacidade de voar. No seriado, de forma muito interessante, este processo é retratado de maneira profunda e fidedigna: já no primeiro episódio, "The Vow", Tituba auxilia Mary no seu processo de "partida" para o Sabbat.

Na cena, a bruxa "unge" a vassoura com uma substância especial e parece tocar a testa, o nariz e os lábios da sua Sacerdotisa com o mesmo líquido. Após um momento Mary literalmente “monta” a vassoura e depois é vista na cama com seus músculos enrijecidos entrando então em um estado alterado de consciência. Ela "voa" então, não fisicamente, mas sim "espiritualmente" ao ponto de encontro e de comunhão com os demais Feiticeiros. Em outro momento da série, Tituba utiliza o grande falo de madeira em Mary, com o mesmo intuito.

Este processo ritual está alinhando aos registros históricos de confissões de bruxas que relatavam tanto a ingestão de chás quanto a fricção de certos unguentos no corpo que provocavam, de fato, reações alucinógenas. Outros testemunhos, porém, também associam essas mesmas experiências "fora do corpo" a processos de masturbação com "bastões" ungidos com substâncias especiais e preparadas desta mesma espécie. Existem muitos indícios que associam, inclusive, a própria iconografia tradicional da bruxa montada na vassoura, às experiências desse gênero. 



Se por um lado para os Wiccanos o "Sabá" consiste em uma experiência ritualística, de encontro sazonal ou "física", por outro lado, para muitos praticantes da Arte Tradicional, a ideia de Sabbat consiste em, de fato, uma experiência onírica. E para alcançar tal estágio, seja através dos chamados "sonhos lúcidos" ou mesmo pelo que pode ser chamado por alguns de "projeção astral", existe uma série de preparativos que vão sim, desde a ingestão de substâncias alucinógenas quanto a processos de respiração, concentração ou meditação controlada e até mesmo guiada (lembremo-nos que em Salem o voo é sempre guiado por alguém, como na ocasião em que Mary ajuda Mercy a projetar-se para fora do corpo também). 


A Bruxa como Exilada


É recorrente, ao longo do seriado, a associação das bruxas com os mortos. Nesse sentido, uma questão importante de ser levantada é a relação de uma personagem específica, Mercy Lewis (em especial na primeira temporada) com o vale escondido na floresta em que a população de Salem costumava jogar seus mortos indesejados. É ali que a bruxa, depois de renegada tanto pela sociedade comum quanto pelas suas próprias irmãs bruxas da “colmeia” que Mercy encontra seu lar. Assim como nos é familiar nos contos de fada, mais uma vez a bruxa “mora” longe, isolada, no meio da floresta, onde ninguém deve procura-la, ou quando poucos procuram, o fazem somente em caso de grande necessidade. E não sem dar algo muito valioso em troca. Conforme as lendas, essas bruxas podem ter sido tanto expulsas do sociedade comum quanto serem uma espécie de Auto-Exiladas do convívio profano. Mercy Lewis encaixa-se em ambas categorias dessa bruxa tradicional. 

A questão do “Exílio” possui uma simbologia profunda dentro das tradições Bruxas. A Bruxa Exilada é aquela que não se adaptou às correntes e às mordaças impostas pela sociedade profana (no caso de Mercy Lewis, literalmente), e encontrou na Natureza (leia-se em si mesma) a sua morada. Encontrando-se consigo mesma, torna-se selvagem, ou mesmo um monstro aos olhos de quem não tem os olhos treinados. O Bruxo Exilado é aquele que morreu para o mundo superficial e limitado compartilhado por todos e que por isso vai embora para mergulhar no infinito de si mesmo. O Feiticeiro Marginal é aquele que é visto como um ignorante aos olhos comuns, mas como um Sábio aos olhos dos Deuses. 



Acreditamos que Mercy figura como uma importante metáfora para todos aqueles que, oprimidos por uma sociedade profana, encontram na Arte uma libertação. 

Outro elemento importante, e também recorrente na história, é o fato de que praticamente todas as reuniões entre as bruxas acontece na floresta, o mais longe possível dos olhos profanos. A natureza aqui, portanto, não apenas como um lugar de afastamento e de isolamento, mas também de proteção e resguardo. Tentando fazer um paralelo com nossa realidade direta: hoje em dia, se por um lado os parques públicos estão cada vez mais ocupados por grupos neopagãos que organizam seus eventos abertos durante o dia, em outra mão, o silêncio do quarto noturno ou mesmo a quietude das encruzilhadas durante a madrugada ainda não deixaram de servir de Altar para o ofício de certos praticantes das Artes. 

Nada impede, por exemplo, que os mesmos que praticam de mãos dadas durante o dia ao ar livre, também dobrem seus joelhos, sozinhos, nas encruzilhadas durante a noite. Da mesma forma que uma semente precisa da escuridão, do resguardo e do silêncio da terra para crescer e florescer, igualmente o Ofício também precisa, por uma série de razões, ser resguardado sob o manto da noite e do ocultamento. 



Opressão, Bruxaria e Revolta


No quinto episódio, "Lies", Mercy e suas amigas começam a se dar conta não do poder real da bruxaria, pois Mercy ainda sequer foi iniciada, mas do poder ilusório, ou mesmo aparente da posição de Mercy como "bruxa" perante a sociedade puritana. Nesse momento, as meninas utilizam-se da "possessão" da filha do reverendo Lewis para acusar o pai de uma delas, que bebia e batia na filha, de vender-se ao diabo. O homem de fato é preso e afastado da garota que, inclusive, planejava prostituí-la.

Satisfeitas com a vingança, as meninas vão para a floresta durante a noite. Dançando, tiram a roupa ao redor da fogueira e também cantam ao "Príncipe da escuridão, senhor de tudo". (Uma cena semelhante é a que inicia o filme As Bruxas de Salem, de 2008, disponível aqui).


É impossível deixar de pensarmos nos paralelos da Feiticeira do historiador Jules Michelet, onde este via na figura da bruxa uma camponesa que, fazendo da sua Arte uma ferramenta de revolta, resistia contra a opressão de um cristianismo violento, misógino e opressor. Aquelas mulheres pobres e marginalizadas encontravam na Feitiçaria, portanto, uma forma de luta contra a "injustiça da sorte". Se estudos recentes criticam o romantismo de Michelet, muitas pessoas compartilham a visão de que, se por um lado é difícil falar em uma espécie de "consciência de classe" entre as bruxas históricas a esse ponto, por outro lado, é difícil ignorar o aspectos simbólicos e das concepções de inversão e de oposição dos ritos das Bruxas.

Um dos momentos mais emblemáticos desta questão está no episódio 12 da primeira temporada, “Ashes, ashes” quando Mercy, no vale, conversa com seus mortos. Chama todos os excluídos de seus “filhos”, tomando para si, por exemplo, uma criança não batizada e outra menina que teve um filho fruto de incesto. A bruxa via a si mesma como Exilada e como mãe de todos aqueles considerados “impuros” para não serem enterrados no cemitério da igreja, no interior da cidade.

“Deixe que as crianças venham comigo,
Para o reino do Diabo que lhes pertence”.


Em outras palavras, o "reino do Diabo" aqui é o reino dos marginais, dos excluídos, o reino que não é o da sociedade puritana, ou "de bem".

No último episódio da temporada, “All Fall Down”, Mercy encontra-se com outras crianças, também no meio da floresta, e declara que é a “Rainha da Noite”. É impossível, dessa forma, ficarmos alheios aos ecos de uma “Aradia” em Mercy. Conforme vemos no Evangelho de Lelland, Aradia teria dito que seus adoradores deveriam “ser livres de toda escravidão” e que os ritos deveriam perdurar “até que morra o último dos opressores”. Já a própria deusa Diana teria dito, antes de enviar sua Filha à Terra:

“E vós que sois pobres e sofrem coma fome,
E labutam em miséria, sofrendo também
Constantemente com a prisão; Ainda assim
Tendes uma alma, e por vosso sofrimento
Sereis felizes no outro mundo,
Mas negativo é o destino
De todos os que vos causam mal”.

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Na terceira parte deste review ainda falaremos sobre várias questões a respeito da Arte verdadeira partindo de elementos ficcionais do seriado. Temas Necromancia, Astrologia Inquisição e Exorcismos ainda serão assuntos abordados. Aguardem! 

“Cruour innocentia maleficarium pestilentia Walpurgisnacht.
Consummatum est.”

(Sangue inocente, peste maléfica. Walpurgisnacht. Está Consumado.)

4 comentários:

Zack Abrantes disse...

Tá melhor que a part 1 essa fico excelente parabens :)))

Reginaldo Gonçalves disse...

Perfeito!

Anônimo disse...

FabulOsO!

Vinicius Santana disse...

Aguardo ansiosamente pela parte 3 deste review!