quarta-feira, 18 de novembro de 2015

E se os Deuses não ligassem pra você?

A perseguição de Orestes (Bouguereau 1825-1905)

Semana passada, a caminho do trabalho, peguei uma chuva forte. Nunca me preocupo em carregar guarda-chuva por uma série de razões, mas basicamente porque o tempo que eu passo na rua é o tempo que eu levo para fazer o trajeto de um ponto de ônibus a outro. Quase sempre é pouca coisa, então um pouco de água na cabeça não faz mal, pelo contrário, até refresca. Mas dessa vez foi diferente: tive que dar algumas voltas a mais, e resultado: peguei uma das piores inflamações de garganta na minha vida. Na madrugada de sábado, beirando os 40° de febre e sem poder engolir a própria saliva, lamentei em silêncio: “o que eu fiz pra merecer isso, meus Deuses”? A pergunta não poderia ter sido mais ridícula. 

Ridícula por três razões: primeiro por pressupor o “merecimento” da doença, como se o universo funcionasse através do princípio de uma meritocracia cósmica onde tudo o que acontece conosco, reles mortais, deve ser tido como uma bênção ou uma punição daquilo que fazemos ou deixamos de fazer. Segundo porque a causa da minha doença de fim de semana era óbvia: a chuva que peguei, imprudentemente, alguns dias atrás. O que os Deuses teriam a ver com isso, afinal? E por fim, pergunto-me também se Eles não teriam mais nada de importante pra fazer do que me enviar uma infecção bacteriana pra curtir no fim de semana.  

Contudo, não quero dizer com isso que eu descredito no fato de que eventualmente possamos comunicarmo-nos com nossos Espíritos por meio de sinais, mensagens ou outras meios nesse sentido. Pelo contrário: eu gosto de pensar que o Universo é um Todo costurado e que assim como a cabeça, os olhos e o ouvido, também o braço da Bruxa sempre alcança o Infinito (como eu disse em outras ocasiões, inclusive aqui). Mas eu prefiro pensar que, pelo menos comigo, essa comunicação sempre aconteceu em um nível muito mais sutil e sensível do que nesses termos binários e maniqueístas de castigo/punição. Talvez isso soe Bíblico demais pra mim. 

No mais, acredito que essas ocasiões são momentos especiais. A hora em que nossas raízes tocam o Inferno, ou que nossos ouvidos escutam os Céus, são momentos raros e únicos – apesar de eternos. Mas não podemos esquecer que na maior parte do tempo, somos um grão de areia flutuando em um universo infinito. Somos pó e ao pó voltaremos. Supervalorizar nosso lugar no Cosmos é não somente recair na pretensão Iluminista ocidental, mas reforçar a ideia judaico-cristã que nos foi incutida desde crianças de que alguns de nós somos “escolhidos” em detrimento de outros, que são “danados”. O que me soa tão ridículo quanto culpar os Deuses por eu estar tomando amoxicilina agora. 

O Enforcado no antigo tarô de Marselha

Talvez seria interessante acostumarmo-nos com o fato de que, pelo menos na maior parte do tempo, nossos Deuses não estão preocupados com o que fazemos ou deixamos de fazer. 

8 comentários:

Emanuel J Santos disse...

Ser um Bruxo pressupõe uma capacidade ímpar de aproximar-se do ateísmo, saudá-lo como saudável, e ainda assim manter-se com a chama no peito entre as sombras.
Por isso a Arte me representa, me adjetiva, me identifica.

Reginaldo Gonçalves disse...

Hahaha' Já pensei várias vezes sobre isso cara, e muitas vzs depois de eu mesmo chegar a uma resposta parecida com a sua! Rs Parabéns pelo texto!

Luciana Machado disse...

Coleciono estes momentos...kkkkk legal...bom ouvir que não sou a única...

Gabriel Vitorino disse...

Até que enfim! Pensei que havia morrido hahaha

Diego Araujo disse...

Amei

Isadora Garcia disse...

Cheguei aqui através do texto do Emanuel no Conversas Cartomanticas.
Texto muito claro e muito lúcido. Ando numa fase desse tipo, pensando exatamente estas coisas, o que me fez pensar até que eu não acreditava mais na Divindade.
Mas talvez seja apenas isso: Deus não está ocupado das nossas pequenas mazelas.

Obrigada por compartilhar conosco esse tema!

Fábio Firmino disse...

Se eu ficar debaixo de um sol de 40 graus durante um dia inteiro sem proteção, terei sérias queimaduras. Perguntarei aos céus:"Hélios, o que fiz para merecer isto"? Se eu mergulhar no mar bravio e me afogar, perguntarei ao mar: "Por que me derrubaste, Poseidon"?

Uma das coisas que mais aprecio no paganismo é a noção de que "somos responsáveis pelos nossos atos". Não no sentido ação/julgamento/recompensa/punição do cristianismo, que prevê um deus o tempo todo preocupado com o que fazemos ou deixamos de fazer. Mas no sentido de lei natural/causa/efeito, em que a presença dos Deuses só é relevante no sentido de que foram Eles que criaram as leis.

Shirley Lage disse...

Amei a matéria! Importante reflexão sobre o ego, também.