quinta-feira, 26 de novembro de 2015

Quem são nossos Ancestrais?

Alma Parens, de Bouguereau (1883). 
Noite passada, fechei o Círculo e fiz meu Esbá de lua cheia, como de costume. Arrumei o altar, acendi as velas e o incenso, posicionei os objetos ao redor do quarto como de costume, nada de diferente. Mas algo em especial me provocou de certa forma: tenho o costume de acender uma primeira chama ritual, o que eu chamo de Fogo dos Ancestrais, “fonte” na qual todas as outras velas e incensos são acesos. Também costuma ser o último a ser apagado. Geralmente se trata de uma vela vermelha que tem por objetivo representar sui generis o sangue bruxo ou o sangue daqueles que vieram antes de mim, necessário para eu estar ali, naquele momento. O sangue dos Ancestrais, dos meus Antepassados. O Fogo de Vesta. Enquanto derramava as gotas de cera vermelha no recipiente a fim de fixar a base da vela, a pergunta que nomeia este texto veio à minha mente.

Alguém precisou dar o seu sangue para que eu estivesse ali? Se sim, quem? E o principal, o que isso significa exatamente? 

Continuei pingando aquelas gotas vermelhas que, imitando o sangue, lembraram-me ironicamente do sangue venenoso da Medusa, a partir do qual Esculápio descobriu, do aparente veneno, o poder de curar. 

Ora, se não fosse literalmente meu pai e minha mãe, com certeza não estaria ali. Mas pensar na ideia de sangue, principalmente para nós, homens, pressupõe-se também a ideia de sacrifício. Absolutamente, se não fosse o esforço que eles empreenderam ao longo dos anos a fim de me sustentar e nutrir, obviamente eu não estaria de frente para aquele altar ontem à noite. O que me levou a outro nível da questão, mas por enquanto ainda óbvia: também são meus Ancestrais todos aqueles da minha família direta que contribuíram para minha formação, para o meu sustento a crescimento, que também abdicaram de alguma forma, ou de alguma coisa, como meus avós que também me nutriram e me deram amor. E também os pais dos meus avós que nutriram a eles e meus pais, e assim por diante.

Mas como nem somente do pão vive o homem, também sabemos que a ideia de Ancestralidade é bem mais ampla que a noção de família sanguínea. Também são nossos Ancestrais aqueles da nossa linhagem iniciática direta, em outras palavras, os Iniciadores dos nossos Iniciadores. Se não fossem essas pessoas diretamente, talvez não estivéssemos percorrendo as sendas que hoje percorremos. Mas ok, até aqui nenhuma novidade. O que me provocou no momento do ritual de ontem à noite foi se o conceito de Ancestralidade não pode ser ampliado ainda para além disso.

O Julgamento, no tarô de Marselha.
Se nossos Ancestrais são aqueles que nutriram-nos direta e espiritualmente, por que, de certa forma, aqueles que nos formam intelectual e filosoficamente também não podem ser considerados membros da nossa Família, ainda que sem laços consanguíneos ou iniciáticos diretos? Tenho amigos que, ao longo dos anos, me proporcionaram longas conversas que funcionaram como verdadeiras Iniciações, tirando-me muitas vendas dos olhos e abrindo meus ouvidos para coisas diferentes. Se não fossem muitos destes, certamente não estaria empunhando um Athame ontem à noite. Por que não homenageá-los também enquanto acendo meu fogo de Vesta?

O que significa nutrir e formar uma alma? Pergunte a si mesmo se certas pessoas que passaram pela sua vida, ou até mesmo os autores que leu, também não são responsáveis pelo que eu você é hoje. Seria difícil dar uma resposta negativa a esta pergunta. Se falo por mim, posso dizer que certamente não estaria como estou hoje se não fosse, por um lado por meus pais e meus avós, por outro lado, devido a certas caminhadas que tive e ainda tenho, no centro histórico de Porto Alegre, se não tivesse lido Fausto do Goethe, se não tivesse ouvido Loreena McKennit, ou mesmo se não tivesse contemplado nenhum Bouguereau.

Se o paganismo pode ser entendido em parte como uma tradição filosófica, e a bruxaria, também em parte, como um ofício aprendido, penso que nossos Ancestrais, nesse contexto, podem ser todos aqueles que nos nutriram. Não apenas fisicamente, mas também filosófica, espiritual e esteticamente. Cultuar nossos Ancestrais pressupõe-se, antes de mais nada, a ideia de gratidão: gratidão e reverência pelas nossas raízes, que são quase infinitas a ponto de alcançar o inferno. Porque somente assim nossos galhos chegam ao infinito do Universo. 

Quando me dei conta disso, ontem à noite, percebi que a chama vermelha do meu altar queimou mais forte.

8 comentários:

Emanuel J Santos disse...

Quando eu chamo os Nomes, não é só minha voz que os chama...
É a minha voz e a voz de todos aqueles que chamaram os Nomes antes. Como se fôssemos um coral que o tempo não foi capaz de calar.

Yara Bizerril Gomides disse...

que texto bom de ser ler , obrigada !

Pedro Thiago Souza disse...

Tua escrita <3 É, não só de pão vive o homem e a nossa alma (não encontrei nome melhor) vai se alimentando e crescendo aos poucos e muitas pessoas que talvez nunca nem saibam disso, são responsáveis por essa formação.
Um dia você abre a boca para falar um feitiço ou dar uma aula e percebe que a sua voz é formada por tantas outras vozes e ela é mais poderosa justamente por isso. Como se um fragmento da alma dos escritores, pintores, poetas etc permanecessem vivos em você.
Obrigado pela inspiração. Parabéns sempre.

Socorro van Aerts disse...

Muito grata pelo texto Odir, veio no momento certo responder a várias indagações que fazia nesses últimos tempos, ou seja, fica apenas "a ideia de gratidão: gratidão e reverência pelas nossas raízes (...)" e nada mais, a meu ver! Com todo o respeito aos meus ancestrais, eu sou eu, e eles são eles... E acho que não foi à toa que nesta semana saiu a carta do Julgamento... Sincronicidades que revelam verdades...

Adriano Carvalho disse...

Ahhhhh como é ótimo ver o sangue ferver em ti... lembro anos atrás sua ânsia pelo verdadeiro culto aos Poderosos Mortos na Arte... e hoje você nos presenteia com essas belas palavras... #OrgulhoDefine

Lucas Silva Araújo disse...

Ótimo texto! Sem querer deu uma grande contribuição para uma conversa que tive com um amigo a dias atrás. =]

Anônimo disse...

Os nossos ancestrais são todos aqueles que nos ensinaram alguma coisa útil para o nosso crescimento espiritual. Príncipe da Liberdade.
https://principedaliberdade.wordpress.com/

Rodrigo Nascimento disse...

Maravilhoso post ...