sábado, 26 de dezembro de 2015

#somostodos pagãos mal resolvidos?


Acabei de voltar pra casa depois do tradicional almoço de Natal na casa dos meus avós. A caminho de casa, abri o feed do meu Facebook e vi que um dos meus amigos compartilhou esta postagem que reproduzo acima. Tive que ler duas ou três vezes pra entender. Talvez eu não tenha entendido até agora, então peço antecipadamente desculpas pela minha ignorância ou pela minha incapacidade de interpretar um texto.

Talvez seja a hora de todos que alguma vez criticaram o trabalho das pessoas públicas que compartilham esta opinião, pedir desculpas. Talvez até perdão. Porque uma pessoa, ao garantir que sabe o que acontece no íntimo de cada um, ou “no fundo” de absolutamente todos aqueles “pagãos” (com aspas, é claro) que celebraram o Natal, essa pessoa talvez tenha atingido tal grau de compreensão, de esclarecimento, de evolução e de iluminação no qual poucos de nós, reles mortais, talvez jamais sejamos capazes de alcançar. Afinal, quem tem o poder de saber o que acontece no íntimo do coração dos outros? Sócrates já teria dito que conhecer a si mesmo já é algo deveras difícil. O que diria, portanto, a respeito de conhecer os outros? Ora, talvez Sócrates também não tenha sido algo muito mais do que um pagão mal resolvido.

O Mago, de Rider-Waite. Invertido.
O Natal, aqui em casa, sempre foi em família. E eu sempre pensei que o amor seria algo importante, mas agora vejo que talvez eu esteja errado. Afinal, o autor da postagem do Facebook deve conhecer minhas festas de família mais do que eu mesmo. Ontem à noite, próximo a meia-noite, meu avô reuniu toda família, demos as mãos, fizemos um círculo e uma oração, e dentre outras coisas, ele agradeceu ao Salvador que nessa época do ano traz a Luz a todos nós. Nada fundamentalmente muito diferente do que fizemos no Litha do nosso Coven. Enquanto ele fazia isso, fechei os olhos e apenas agradeci. Eu podia sentir uma corrente vibrar naquele Círculo. Mas talvez porque, “lá no fundo”, eu e meu Coven, sejamos todos mal resolvidos, todavia.

No meu processo de formação e de Iniciação, aprendi com meus Iniciadores alguns elementos fundamentais da Filosofia Perene, o que sempre marcou profundamente a minha concepção de Bruxaria. E também de Paganismo. O perenialismo basicamente parte do princípio que existe uma Verdade que, ao mesmo tempo que é Universal, também é mutável e capaz de metamorfosear-se. Também existem algumas provocações filosóficas a respeito da universalidade de todas as religiões. Isso explicaria a simpatia de alguns pagãos para com o Natal: porque muitos vêem nas comemorações cristãs, aspectos dessa Verdade que é universal, atemporal e também plural. Quem aqui não conhece a passagem das Brumas de Avalon em que Morgana reconhece, na Virgem Maria, uma certa manifestação da Deusa? Ora, lendo o texto que reproduzi acima, só consigo chegar a uma conclusão: talvez sejamos todos pagãos mal resolvidos, afinal. Talvez René Guenon seja nada mais do que um mal resolvido, talvez Marion Zimmer Bradley tivesse sido uma pagã mal resolvida, talvez todos os meus Iniciadores sejam pagãos mal resolvidos por me ensinar essas coisas.

Qualquer pessoa que estuda história do cristianismo percebe que, gradualmente, as tradições cristãs incorporaram elementos de paganismo em suas crenças em práticas, em um processo tríplice que Jacques Le Goff caracterizou como destruição, obliteração e desnaturação. Ao longo de quase mil anos, mas principalmente nos três ou quatro primeiros séculos do Cristianismo na Europa, houve um processo de convivência, de troca mútua, entre pagãos e cristãos. Existem relatos, como os de Cesário de Arles, por exemplo, a respeito de pessoas que iam à missa, mas que concomitante a isso rezavam para seus ancestrais e participavam de ritos que envolviam danças e músicas pagãs. Mas agora, como historiador, à luz dos autores esclarecidos e iluminados da Wicca brasileira, parando pra pensar, percebo que talvez todas essas gerações, ao longo de centenas de anos, eram nada mais que apenas mal resolvidas.

Talvez os artistas do Renascimento, formados em escolas ocultistas e esotéricas, a partir da sua formação filosófica neoplatônica, que fizeram pinturas e esculturas de ícones cristãos desenvolvendo ali elementos subliminares pagãos sejam nada mais do que mal resolvidos. A iconologia e a arquitetura renascentista, que retrata uma simbiose incrível entre as culturas cristã e pagã talvez seja apenas um patrimônio artístico e cultural desenvolvido por mal resolvidos. Talvez Erwin Panofski, assim como toda a tradição acadêmica da história da arte, tenha esquecido de apontar em notas de rodapé que todas essas pessoas eram pagãs mal resolvidas. Erro grave. 


Pagem de Copas, de Rider-Waite. Invertido.
Ter lido aquele post no Facebook abriu minha mente para uma série de erros que sempre acreditei serem acertos: cânones da filosofia oculta ocidental como Agrippa, que escreveu, dentre outros trabalhos, seus Três Livros de Filosofia Oculta, agora percebo que era um pagão mal resolvido também. O mesmo a respeito da Clavícula de Salomão, uma obra que compartilha de paganismo e judaico-cristianismo a cada página virada, que por séculos é lida, traduzida e comentada, igualmente: tudo isso não passa de um entulho de paganismo mal resolvido. 

Talvez o nosso esforço em comungar com o “diferente” (que sempre acreditei não ser tão diferente assim) seja apenas uma marca do nosso paganismo mal resolvido. Pode ser que o autor do texto que reproduzi acima, na posição de tão conhecedor do íntimo das pessoas, iluminado como é, talvez tenha conseguido descortinar esse véu de ignorância. Será que um dia chegaremos a esse nível de evolução? 

Sim, talvez sejamos todos pagãos mal resolvidos.

Ou não.

Pode ser que talvez, mas só talvez, pagão mal resolvido seja aquele que, como diria Caetano Veloso, como Narciso, acha feio tudo aquilo que não é espelho. 


Leia também: 


20 comentários:

Diego King disse...

Transformando lixo em ouro filosófico desde 1996.

Iony Ming disse...

Obrigada Odir! Simplesmente um tapa na cara da sociedade.

Iony Ming disse...

Quem escreveu isso deve ser aquela pessoa que fica emburrada no canto nas reuniões de família. Devia se converter ao caminho de Ines Brasil.

Luciana Machado disse...

da série ‪#‎GaiaAindaValemosAPena‬...
Parabéns pelo discernimento e clareza... Julgar é Patriarcal... Nossos olhos precisam se abrir para a Era Comum...
E se necessário - vale aqui um bom estudo... etimologia... Comum vem do Latim..COMMUNIS, ato de repartir deveres e valores em conjunto... de formas iguais - relacionada a MUNUS, “tarefa, dever, ofício”... Todos somos iguais... COMUNIDADE! Sem verdades que se sobressaiam....

Everton Carvalho disse...

Broosha não pode comemorar o Natal com a família assim como neopentecostal não pode comer doces de Cosme e Damião...

Natal foi roubado pelos malditos cristãos! Apropriação cultural desses cristãos viu... então bora bater tambor no parque para que Tara abra os chacras.

Melody Mel disse...

Texto maravilhosamente muito bem colocado.
Parabéns!

Luís Gustavo Pereira disse...

Não somente um excelente texto: um necessário texto!

Madeleine Oliveira disse...

Isso não é um texto, é uma obra de arte :) Parabéns Odir.

Agathos disse...

Brother, lindo isso! Mandou muito bem!!

Talles Victor disse...

:D

Katharina Dupont disse...

Eu adorei seu texto e sou tua fã desde os primordios hehehe mas só uma colocação
Eu sinceramente sonho com o dia em que essa sua postura, a nossa postura enquanto pagãos ( independente do caminho escolhido ) seja vista desta mesma forma por aqueles que nos denigrem, por aqueles que ainda hoje nos perseguem.
Por aqueles que em menor ou maior graus nos acusam de tudo.
Enquanto este dia não chega meu querido minhas celebrações no Natal da família serão sempre amargas..
Beijos <3

Álex Hylaios disse...

Vamos compartilhar só sabedoria, conhecimento, cultura e coisas boas sobre o paganismo brasileiro? Vamos!
*aperta o botão de compartilhar comendo um prato de carne q sobrou da ceia de natal*

Tiago Batista de Oliveira disse...

‪#‎somostodospagãosmalresolvidos‬
Esse texto é simplesmente um verdadeiro tapa na cara da sociedade pagã atual.

Bruno Passos Cotrim disse...

Só um adendo a tudo que já foi comentado. A maioria das praticas modernas do paganismo nem são ancestrais, nem cem anos Tem direito. Um monte de releitura (totalmente validas e adequadas a epoca). A propria roda do ano como é agora até onde sei não é tão antiga (me corrija se estiver errado). Nessa linha, todo pagão antes dos anos sessenta era mal resolvido?

Anônimo disse...

Texto emocionante, digno de um cavalheiro, autêntico e repleto de elementos. Não esperava nada menos de alguém como você... Um verdadeiro líder!!! Menos ostentação e mais estudo fariam bem ao colega acima citado. Já passou dos limites.

Thyago Ribeiro disse...

Gente, é por isso que frequentemente visito esse site. A sobriedade nas palavras prevalece <3

Fábio Donaire disse...

Primeiro eu precisei descobrir como postar um comentário aqui. Definitivamente, internet não é o meu forte. Bem, em seguida, não preciso dizer o quanto assinaria cada linha de suas palavras sem medo de estar comentendo um equívoco. Mas também tenho a minha crítica. Eu tomei contato com o paganismo em 1994. Estudei, fui iniciado etc. Antes eu era umbandista. Quando as guerras começaram pressenti cheiro de algo ruim no ar. Voltei para a umbanda e vou muito bem, obrigado. Exatamente por todas as razões que você elencou muito bem. Porque sou um perenialista. Porque estudo hermetismo cristão. Estudo o suficiente para reconhecer em cada cerimônia pagã uma dose de cristianismo quase letal. Mas conheço uma parte da comunidade pagã brasileira. Uma parte muito pequena, aliás. Há os da igreja 'Renascer em Gaia', que saíram da igreja mas a igreja não saiu de dentro deles. São fundamentalistas como qualquer evangélico que não tenha entendido as palavras de Jesus. Dos que conheço a maioria (veja bem, não todos) é rasa. Não vão além de fórmulas prontas dos livros e querelas intelectuais mal embasadas e não referenciadas. Trata-se de um jogo de poder, relações de poder que se fazem e desfazem enlouquecendo cada peça do tabuleiro. Um vira pastor da universal, outra defende o neonazismo tornando-o entrelinhas de seus discursos fervorosos... e por aí vai. Não queria falar assim do paganismo, não é a minha religião e acho de péssimo tom falar assim da religião dos outros. Mas o resumo do que eu quero dizer é que, sinceramente acho que, como pagão, vc usou muito bem a sua energia, se posicionando e suscitando autocrítica e reflexão como as pessoas não aprenderam a fazer. Axé, Odir!

joana felizardo disse...

excelente reflexão Odir! do ponto de vista do autor do texto que deu uma valiosa colaboração levando voce a escrever um texto tao iluminado até o Tarot que é uma tradição tão antiga é mal resolvido: afinal o Tarot reune simbolos da Kabalah, cristãos, pagãos e das mais diversas fontes...mas como diz o sabio Lulu Santos, assim caminha a humanidade com passos de formiga e sem vontade...

Carolina Martins disse...

ótimo texto, Odir! <3

Marianne Coêlho disse...

Muito lúcido o texto, amei. Conhecendo a página agora e já apreciando bastante.