domingo, 24 de abril de 2016

O Bruxo como Alquimista; ou sobre a matéria-prima da Bruxaria

Ilustração de Núpcias Alquímicas, de Christian Rozenkreuz, século XVII.
A arte da Alquimia consiste, basicamente, no poder de transformar substâncias. Em um sentido mais fundamental ou primário, os alquimistas eram aqueles que transformavam (ou tinham por intenção fazê-lo) chumbo em ouro. Sob uma perspectiva metafísica, no seu aspecto mais filosófico ou até “mágico”, os alquimistas eram aqueles que conseguiam transformar a ignorância em conhecimento, a maldição em bênção ou até mesmo a pobreza em riqueza. Mas tecnicamente falando, não se trata apenas de transformar uma coisa em outra, mas de fundir elementos a fim de criar algo novo. Nisso consiste o processo do solve et coagula, de separar para juntar, de desunir para unir novamente. O Alquimista é um criador por excelência.

Eu já disse isso em outras ocasiões, e vou repetir novamente: eu acredito que os braços de uma Bruxa sempre alcançam o Infinito do Universo. Há quem diga (e eu ainda não estou muito certo disso) que um dos sentidos literais da palavra bruxa quer dizer “moldar” ou “transformar”. Nesse sentido, a bruxa, por natureza, é uma moldadora ou uma transformadora (e nisso eu tenho profunda convicção). Por isso o bruxo também é um pouco alquimista. Mas qual seria, por sua vez, a matéria prima da bruxaria?

Enquanto historiador, sempre percebi que a essência da bruxaria –,seja na sua forma ou no conteúdo, que é a feitiçaria – esteve presente em todas expressões religiosas e em diversos e diferentes momentos da nossa civilização. Nesse sentido, a bruxa é um fenômeno universal. E enquanto bruxo tradicional, sempre aprendi que um dos instrumentos que um bruxo pode se utilizar para realizar o seu Ofício é, justamente, a fé dos homens. Se a bruxaria consiste, portanto, no poder de mudar, moldar e transformar, e se as bruxas sempre existiram independente da religião que as acolhia (ou as rechaçava), isso me fez pensar que a essência do trabalho bruxo, que a matéria-prima mais fundamental da prática feiticeira é, basicamente, a fé dos homens.
Ilustração de Basilica chymica, de Oswald Croll, c. 1647. 
Pensar o bruxo enquanto Alquimista levando em conta que a fé dos homens é a matéria-prima do seu trabalho, é pensar justamente na sua capacidade de desmontar, de separar e isolar elementos muito específicos de determinadas fés para combiná-los e uni-los com outros elementos de outras fés a fim de criar algo coeso que combine, e, portanto, que funcione. Conheço bruxos que sabem como invocar os deuses gregos, por exemplo, à maneira clássica: que conhecem desde os gestos necessários até o tipo de oferenda específica para cada divindade. Conheço bruxas que sabem invocar os deuses egípcios pelos nomes tradicionais, e não pelos nomes romanizados que são comumente atribuídos a eles e que estão nos manuais de mitologia que você encontra na livraria da esquina. Conheço bruxas que sabem a forma correta de entrar em um cemitério e conheço bruxos que conhecem uma maneira apropriada e respeitosa para entrar em uma igreja. Conheço feiticeiros e feiticeiras que combinam tarô com magia e até leitura das mãos com a astrologia e mesmo uma química que utilizou-se da tabela periódica para fazer o seu próprio oráculo. Conheço outros que fazem um ebó para Exu com a mesma expertise que fazem orações tradicionais hindus.

Bruxos e bruxas como esses sempre foram os que mais me ensinaram. Porque eles sempre me mostram que se os Deuses que cultuamos podem transitar por entre os mundos, isso é uma forma de nos mostrar que também podemos fazer o mesmo. É importante que transitemos entre esses mundos, que conheçamos novas técnicas e que acessemos novos mitos e ritos. Uma bruxa experiente trabalha com o que está mais próximo à sua mão. Portanto, quanto mais instrumentos conheçamos, mais longe o nosso braço alcança e mais rápido ele trabalha.

Eu entendo que algumas pessoas tenham lá sua reticências em trabalhar com santos católicos ou com orações tradicionais cristãs, por exemplo. Ou que não gostem de misturar panteões (e eu acho esse cuidado extremamente necessário). Mas nesse intuito de dividir, de separar, de categorizar, muitos esquecem que essas fés não precisam ser - pelo menos não necessariamente - antagônicas. E que com muito cuidado, muita atenção e muito estudo, o resultado pode ser miraculoso, no verdadeiro sentido da palavra. 

Eu acredito fortemente que as fés dos homens podem ser moldadas e trabalhadas ao nosso favor. Mas também reconheço que esse é um trabalho extremamente difícil e que demanda um cuidado muito grande. Pois não é porque a água pode se misturar ao vinho que o mesmo pode ser dito da água e do azeite. Como bons alquimistas que podemos ser, devemos sempre ter em mente que se  por um lado as combinações certeiras podem trazer-nos o ouro, por outro lado, as erradas podem potencializar o veneno do chumbo. 

Estejamos abertos e dispostos a aprender. 


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3 comentários:

Rafael Lupus disse...

Ótimo texto! Bruxos, além de moldarem elementos externos dentro de um contexto fetichista, também moldam a si próprios. As transformações externas que conseguimos realizar, aquilo que funciona externamente, deve funcionar primeiramente internamente. Antes de misturar "certos elementos alquímicos", devemos entender, compreender o máximo possível sobre estes elementos e como estes funcionam. Concordo plenamente com o que foi dito em seu artigo, Obrigado e Parabéns pelo texto!

Anônimo disse...

Excelente leitura

Rodrigo Nascimento disse...

Maravilhoso post!
Desde que os blogs espelho de circe e ophidicus nathura desapareceram não via algo desse nível, Obrigado de verdade estou aprendendo. É maravilhoso quando me deparo com um blog de bruxaria, livre de tabus que não se limita a apenas uma vertente como o detestável (CBT), Bruxaria é criação vida a construção eterna do ego e simultaneamente a destruição do mesmo.
Que os Deuses ilumine os seus caminhos e tudo aquilo em que toque!