sábado, 25 de março de 2017

Sobre os deuses paternais

Eros divino derrotando Eros terreno, de Giovanni Baglione (1602)
Os cristãos costumam dizer que “Deus é amor”. Aliás a ideia de “amor” de um Deus criador para com as suas criaturas me parece algo muito particular do cristianismo, pelo menos esse tipo de amor, que é o amor paterno: o amor de um pai que cuida, protege e zela pelas suas crias. Não é com muita dificuldade que a gente encontra cristãos que reforçam essa ideia de um Deus que provê o que é necessário, que cuida nos momentos de dificuldade e que protege quando o perigo aparece. Em suma, a ideia de um “pai” que está sempre à disposição, sempre prestes a zelar e que nunca abandona. 

A ideia “paternalista” de Deus talvez seja um dos pilares da religiosidade ocidental. Então também não é de se estranhar que esse tipo de visão de divindade também esteja presente no paganismo em um ou outro momento. Aliás a ideia de uma Deusa maternal é algo muito popular: uma mãe que “ama” seus filhos, que provê através da natureza e que faz com que eles retornem ao seu ventre no fim de um caminho não são noções totalmente estranhas a qualquer pagão moderno. Tenho amigos que costumam brincar que as vezes Jeová apenas ganha saias e continua sendo cultuado como Deusa. 

Então eu me pergunto até que ponto esse tipo de visão paternalista (ou maternalista) de divindade ajuda a explicar as coisas. Algumas vezes eu vejo praticantes do paganismo moderno desafiando a teologia cristã com perguntas que questionam a presença do Deus judaico-cristão no momento em que crianças morrem de fome em certos lugares do mundo, por exemplo. Ou que perguntam onde está esse Deus nas ocasiões que envolvem o estupro, o assassinato ou qualquer acontecimento dramático na vida dos seus fieis. Muitos pagãos se sentem muito a vontade para fazer essas perguntas a um crente evangélico, mas as vezes pouco confortáveis para fazer esse tipo de questionamento para si mesmo. Onde estaria essa Deusa maternal, protetora, amorosa, enquanto tanta injustiça acontece ao redor do mundo? Onde estariam esses deuses da prosperidade, da fertilidade, das colheitas fartas à medida em que tanta gente morre de fome no mundo? Talvez não seja difícil celebrar as festas das colheitas quando se tem um supermercado na esquina de casa e um saldo positivo no banco.

O Imperador invertido, do antigo
tarô de Marselha
Digo por mim: as vezes o sentimento de que estamos sozinhos ou abandonados no Universo pode ser um tanto quanto desesperador, mas ele não é definitivo. Quando deixamos de acreditar nesses deuses paternais ou maternais, que parecem estar muito preocupados e muito atentos a cada detalhe do nosso dia-a-dia, deixamos de alimentar a ideia de que somos mais únicos ou especiais do que realmente somos. Quando acreditamos nesses deuses superprotetores, criamos uma falsa sensação de importância, traçamos ritual após ritual um Círculo mágico (porém ilusório) literalmente ao redor dos nossos umbigos. Em outras palavras, por que os deuses se preocupariam em me ajudar a conseguir um emprego novo, a conquistar aquele amor tão desejado ou a me ajudar a “purificar” a minha casa enquanto pessoas ao redor do mundo estão subnutridas, mulheres estão sendo estupradas e crianças morrendo de câncer? Porque nossos dramas mereceriam toda essa intervenção enquanto outros não? Talvez porque nossas formas de “pedir” sejam mais aprimoradas? Difícil de acreditar. 

Eu realmente acredito na existência de deuses, mas não consigo crer que eles estejam muito preocupados com minhas reivindicações, tão efêmeras, tão passageiras, em comparação à eternidade do universo. As vezes cortar o cordão umbilical é necessário. A gente se decepciona e se desespera no início, mas depois tenta crescer e caminhar com as próprias pernas nessa jornada tão breve que é a do Infinito. Acho que alguns deuses se orgulhariam disso.

5 comentários:

João Antonio Andrade disse...

Muito bom ! As pessoas tem que entender que ter um Pai Divino ou Mãe Divina , Divindades Regentes ou Orixás Regentes não significa ter " babá divina " 24 horas por dia , tem que se virar , cuidar de sua própria Vida ! Não deixar tudo nas mãos Delas (es ) ! Até porque os Deuses só ajudam , aqueles que se ajudam ! Deuses existem , existem também fome , miséria, dor , doenças , donald trump ( e Michel Temer ) no Mundo... Responsabilidade nossa também mudar esse Mundo , de aceitar as consequências de nossos atos e escolhas ...

Yuri Pospichil disse...

Traçando um paralelo com a série Vikings ( pq sim, estou viciado com atraso, RS) gosto da visão divina do Ragnar, ele acredita nos deuses, em algum momento até mesmo no Deus cristão, mas não deixa que as divindades decidam suas ações. Ao contrário de Floki, muitas vezes atormentado pelo fanatismo, sofrendo por se sentir traído pelos deuses quando as coisas simplesmente não acontecem dá forma que esperava. Até hoje eu "engatinho" na minha espiritualidade, e talvez por esperar tão pouco dos deuses, me frustro menos nos infortúnios e me regozijo mais nas conquistas. Encaro os deuses como forças a serem respeitadas, professores. Não como uma espécie de Luciano Huck celestial a quem pedimos ajuda somente quando estamos na merda. Kkkkk Não abandone os escritos. Abraços

Ricardo Dalai Lima disse...

Escrevia sobre essa "história da paternidade" pra minha tese e justamente nessa imagem de Deus-Pai que é romantizada (ou hiperromantizada...). Interessante pensar que os últimos séculos mostraram: se ele é Pai, o homem é, mais uma vez, Édipo.

Jean Oliveira Quevedo disse...

Talvez essa seja uma das grandes questões da religiosidade moderna. Seja qual for o deus ou deusa parece que este aspecto provedor não só é o mais cultuado, mas também o único aceito.

A figura de um deus duro, que exige coragem de seus fiéis, que educa, que mostra uma faceta mais cruel do mundo parece não estar mais condizente com o que as pessoas querem sentir com sua fé. Todos querem uma fé segura e provedora para seguir com suas vidas. Não que seja errado, mas é algo que se percebe.

Raphael Costa disse...

As pessoas atualmente têm uma visão muito paternal e maternal dos deuses. Elas usam o reflexo da criação que elas tiveram com seus próprios pais biológicos para construir um ser superior a elas, um ser protetor e provedor, tal qual uma criança em fase de desenvolvimento necessita. Acredito que se vier a existir deuses, e se forem justos, eles não deveria ser superiores a mim, mas semelhantes, porque sou um ser pensante e capaz, tal qual qualquer outro indivíduo. Tem um vídeo da cantora Nina Hagen, que ela diz que crê em Deus, mas não de uma forma a quem se fica implorando atenção para si o tempo inteiro "olhe pra mim, veja só o que sei fazer!", mas sim como um amigo a quem ela entra em contato às vezes. Se é um amigo é alguém que tem uma vida própria, com muitos planos e outros amigos também. Por isso não é obrigado a estar o tempo todo acompanhando ou te salvando. Boas amizades são cultivadas com equilíbrio e reciprocidade. Há uma frase que diz "Lembre que na primeira vez quando eles te encontraram você estava sozinho".