domingo, 2 de abril de 2017

Uma interpretação sobre o filme The Witch (2015)

“A Bruxa”, como foi traduzido para o português, também grafado The VVitch (o que imita a escrita latina antiga) foi o primeiro longa-metragem dirigido por Robert Eggers. 

O filme, que pode ser rotulado como terror ou suspense, e até ir em direção ao terror psicológico, é um dos melhores filmes sobre bruxaria que já assisti, pra não dizer o melhor. Possui uma narrativa lenta, mas que apesar de demorada, prende o espectador interessado do começo ao fim. É preciso certo esforço pra se compreender os pormenores da história: quem gosta do terror explícito, de roteiros diretos, certamente não irá gostar de The Witch. E quanto aos que também se sentem desconfortáveis com o imaginário da bruxaria diabólica (essa imagem que envolve o mito da bruxa demoníaca presente na literatura e nas artes no Ocidente há pelo menos 600 anos, em suma, a bruxaria histórica), esses também não irão gostar da história. Este filme é para quem está disposto a apreciar uma narrativa em que está presente todo o simbolismo que envolve as representações clássicas, tradicionais, tardo-medievais da bruxaria. 


Esse texto possui spoilers. Só leia se você já viu o filme. Caso não tenha visto, você consegue baixá-lo aqui (por torrent) e encontra as legendas aqui.

A história se passa em uma das colônias da "Nova Inglaterra" (o que hoje chamamos de Estados Unidos) formada por puritanos que vieram do Velho Continente em busca de uma nova vida. O puritanismo é uma das vertentes da doutrina protestante que rompe com a Igreja Católica com Martinho Lutero. Em resumo, trata-se uma interpretação mais radical das Escrituras, que vê o mundo físico, material, como símbolo do pecado, da tentação, ou seja, de tudo aquilo que é mal, em contrapartida ao mundo divino, espiritual, que representa tudo o que é bom, mas que está distante e afastado do mundo dos homens. 

O início da narrativa começa com uma família sendo expulsa de uma dessas colônias. O pai, William (interpretado por Ralph Ineson) no tribunal, chama seus julgadores de "falsos cristãos". Provavelmente estamos falando aqui de uma família que possui uma interpretação ainda mais radical do que a interpretação puritana.


Deixando para trás a colônia, eles vão em direção ao interior da região, e se estabelecem em um pequeno rancho, muito próximos a uma floresta. Eu gosto de pensar nessa floresta como o ponto central da história: longe da civilização, do convívio humano, a floresta torna-se uma metáfora do selvagem, do animalesco, do desconhecido. É a partir das sombras dessa floresta que todos os medos e desejos reprimidos por cada um dos membros dessa família, serão exorcizados e projetados como ações externas do diabólico e do demoníaco.


"Eu sei que mereço toda humilhação e miséria nessa vida. E também o fogo do inferno (...) e por isso imploro que me perdoe" reza Thomasin (Anya Taylor-Joy), a filha mais velha. Vejam que em vários instantes essa demonização da vida é algo recorrente e é algo reforçado na educação da família as vezes de forma um tanto quanto violenta. Em outras palavras, todo tipo de pulsão, de paixão ou de desejo é sempre reprimido e tudo que os cerca é relacionado à tentação. A vida, no mundo terreno, de acordo com a interpretação puritana, é um eterno exercício de resistência.


Os diálogos do pai com um dos filhos, Caleb (Harvey Scrimshaw), são particularmente reveladores desse "clima" de repressão quando eles estão caminhando na floresta e o filho repete uma espécie de oração. "Você então nasceu um pecador?" pergunta o pai. Caleb respode que sim: "fui concebido no pecado e nascido na iniquidade (...). O pecado de Adão foi imputado a mim, e uma natureza corrupta habita em mim (...). Minha natureza corrupta é a falta de graça, entregue ao pecado, somente ao pecado, e assim sempre será". O pai finaliza o diálogo com um "muito bem, Caleb". 

Ainda no começo do filme, pai e filho conversam sobre a situação da família em meio ao milharal devastado pela praga.


"Nós vamos conquistar essa floresta (...) não será ela que nos conquistará" diz o pai. A medida em que o filme avança, percebemos que é justamente o contrário que acontece. O desconhecido não pode ser domesticado e tampouco controlado: pelo menos não por muito tempo. 

Um dos momentos-chave do filme é a ocasião em que Thomasin leva seu irmão recém-nascido para brincar próximo à floresta. Subitamente, ele desaparece.


Poucos segundos depois, nós vemos a primeira aparição da "bruxa". Nas ocasiões em que a bruxa aparece, fica particularmente claro o esforço (alcançado com sucesso) da direção de arte de se aproximar das representações clássicas da bruxaria histórica. Uma das inspirações pra direção de arte, sem dúvida, foram as obras de Francisco Goya. Mais adiante eu traço alguns paralelos. 


Nesse momento da narrativa, vemos que a bruxa, em posse da criança, tira sua vida com uma faca e a partir dos seus restos mortais faz uma espécie de "mistura". Vejamos uma questão, portanto, que é o folclore do infanticídio na bruxaria: Segundo as tradições do final da Idade Média europeia, as bruxas comumente raptavam e sacrificavam crianças para seus rituais macabros, mas não quaisquer crianças, interessavam-lhes apenas as não-batizadas, ou seja, as desprotegidas e que ainda tinham a alma eterna vulnerável para ser negociada. Veja isso no clássico "Sabá" de Goya. O que é interessante, pois a medida que o filme se desenrola, descobrimos que o bebê da família também não tinha recebido o batismo, por isso o desespero da mãe que chora sem parar nos dias que se seguem: uma criança morta não-batizada sem dúvida teria por destino passar a eternidade no inferno. A questão do infanticídio ritual era uma acusação "clássica" atribuída a grupos demonizados: os próprios cristãos na Antiguidade tardia foram acusados de tais práticas, depois os hereges e até os judeus por parte da Igreja, e por fim, também as bruxas, que levam a fama até hoje. Isso pode ser visto no clássico "Sabá" de Goya acima em detalhe. 


Segundo tais narrativas, uma das utilidades do sacrifício da criança não-batizada era justamente uso da sua banha: seus bastões (ou cabos de vassoura) eram untados com a gordura da criança assassinada e isso permitia que a bruxa pudesse voar até os céus

Existem uma série de teorias que explicam o folclore que envolve o voo das bruxas: segundo alguns estudiosos do assunto, uma mistura de mandrágora, meimendro e beladona poderia realmente ser utilizada na unção de bastões que poderiam ser usados inclusive em um sentido sexual ou masturbatório: a partir do momento em que algumas mulheres "montavam" nos bastões ou vassouras untados com certas substâncias, isso produziria reações alucinógenas que dariam a impressão de que essas pessoas estivessem literalmente "voando". A parte da "banha" da criança não-batizada seria um acréscimo, portanto, do folclore, do fantástico. Vejamos essa outra gravura de Goya, com detalhe para a representação da bruxa enquanto uma mulher velha e também para a forma como ela monta na vassoura. 

Uma outra possível interpretação para o simbolismo do voo bruxo são possíveis resquícios de práticas pagãs na sociedade em progressiva cristianização da Idade Média: seria um certo costume camponês que as mulheres montassem em vassouras e pulassem aos redores das plantações. Segundo a lenda, quanto mais alto fossem seus pulos, mais alto as plantações cresceriam e mais férteis seriam as colheitas. É possível que ao longo do tempo esse tipo de costume, associado ao sexo e ao paganismo, fosse visto com maus olhos por observadores cristãos. 

A medida em que a história avança, a bruxa novamente aparece. Agora ele é vista pelo filho mais velho, que a vê na figura de uma bela mulher. E de novo ela aparece na floresta. Por que?


Aqui não apenas a floresta é um símbolo para o desconhecido, mas a própria bruxa em si torna-se uma metáfora poderosa que aponta para essa sexualidade pulsante porém reprimida no interior dos pensamentos de um jovem ainda passando pela puberdade, coisa que só pode ser "manifestada" a partir de algo externo, e portanto, demoníaco. 

Lembremos que em mais de uma ocasião Caleb pega a si mesmo observando Thomasin e não sem demora repreende a si mesmo pelos seus pensamentos.


Isso quer dizer que a bruxa aqui representa a pulsão da vida e da sensualidade que não é apenas proibida pela educação puritana, mas reprimida por essa visão cristã de mundo. Obviamente isso precisa ser extrapolado em algum momento, e é na imagem de uma bruxa que isso pode se manifestar: a bruxa aqui enquanto bode expiatório de uma natureza que não pode ser domesticada pela cultura ou pela educação humana. 

Minha opinião é de que nunca houve bruxa alguma. Eu vejo essa bruxa como um símbolo, como uma máscara que essa natureza selvagem, monstruosa, desconhecida e, obviamente, indomesticável, assume para ser interpretada por aquelas pessoas: o desconhecido e o incerto toma as feições de bruxa, de demoníaco, porque essa é a linguagem que eles conhecem, esses são os símbolos que eles dominam para interpretar esse mundo misterioso que os cerca.

Depois de um tempo o jovem volta para casa, mas inicialmente para a mãe, Katherine (interpretada por Kate Dickie) e depois para toda a família, ele está possuído pelo Diabo. "Ele está enfeitiçado", diz a mãe. É nesse momento que a filha mais velha é acusada de ser a responsável pelo estado do irmão e, por extensão, de todo o desastre da família. Os gêmeos começam acusando Thomasin em função da história que a garota contou, em outro momento, para assustá-los, de ser uma bruxa de verdade.

"Eu sou a bruxa da floresta", disse Thomasin. "Quando eu durmo, meu espírito escapa do corpo e eu danço nua com o Diabo", e ela continua: "Foi como eu assinei o seu livro (...) e ele pediu que eu levasse um bebê não batizado, e foi assim que eu roubei o Sam". 

Um pouco antes de Caleb voltar do desaparecimento, as crianças também presenciam a cabra que Thomasin estava ordenhando, dar sangue ao invés de leite. Isso volta na história e reforça a acusação de que a irmã mais velha é uma bruxa.


a Vejamos, portanto, como todo esse imaginário a respeito da bruxaria não era estranho à família: eles conheciam as lendas que envolvem o mito da bruxa (o mito clássico da bruxa europeia, lembremos que a família vem da Inglaterra), e à medida em que a história transcorre e as tragédias se seguem (a expulsão da comunidade, as más colheitas, a fome, a doença dos animais, a morte ou o desaparecimento do filho mais jovem) eles apenas lêem tudo o que acontece de acordo com esse vocabulário, de acordo com esses símbolos: não pode ser o simples acaso ou a má sorte, pois Deus é bom, então tudo o que acontece é culpa do Demônio e das suas agentes demoníacas no mundo terreno: as bruxas. 

Se as plantações, portanto, não crescem saudáveis , a única razão só pode ser bruxaria (Sabemos que o costume de provocar tempestades, granizo e a destruição de colheitas, por exemplo, foi uma acusação costumeira de processos de bruxaria ao longo de muitos séculos). Se os filhos ou os animais estão doentes, o mesmo. 

The Witch parece se tratar, portanto, de um constante e gradual exercício de interpretação do trágico do mundo a partir desse vocabulário puritano.


No momento da "possessão", Caleb vomita uma maçã podre. Lembremos que eles procuravam frutas para comer no começo da história, como alternativa às plantações que não estavam prosperando. Ninguém supõe que a ingestão de um alimento apodrecido poderia ter sido a causa da febre ou das alucinações da criança (pois isso não faz sentido dentro daquela visão de mundo), mas ao contrário, isso foi mais uma prova racional, uma evidência, de que a enfermidade de Caleb foi provocada por feitiçaria.


Eles decidem rezar pelo garoto, e Caleb grita, como se estivesse vendo alguns animais que são comumente associados ao folclore da bruxaria: "Uma rã, um gato, um corvo, uma gralha, um enorme cão preto, um lobo!" e continua: "Ela [a bruxa?] os lança sobre mim, ela deseja meu sangue, eles nutrem-se de suas tetas, de suas partes castas (...), ela envia seus demônios, chafurdando no sangue e na sujeira dos meus pecados". É no delírio de Caleb, que novamente vemos a questão do sexo e da sexualidade é colocada pra fora, coisa que jamais poderia acontecer em sã consciência. No seu transe, a pulsão da sensualidade, associada obviamente ao demoníaco e ao pecado, mistura-se nas representações tradicionais da bruxaria. E mesmo quando finalmente está próximo de morrer, isso se repete, mas sob o espectro do divino e não mais do diabólico: "Sou inteiramente seu, meu amado Jesus, beije-me com os beijos de tua boca, quão amoroso sois! Meu Senhor, meu amor!". 

A partir de então, a histeria se espalha. Thomasin, sendo acusada por todos de ser a bruxa, aponta os gêmeos de serem os responsáveis pois eram eles que brincavam o tempo todo com um bode negro e diziam que conversavam com o animal que chamavam de Black Philip. "Passam o dia murmurando com a besta de chifres" e completa, tentando convencer o pai: "O Adversário costuma vir na forma de um bode". Lembremos novamente do Sabá de Goya. 


Depois que o pai acusa a filha e esta aponta para os gêmeos, o pai volta-se contra as crianças que brincavam com o Black Philip. Ele provoca as crianças que fingiam-se de desmaiadas após o surto do irmão e diz que, assim como Abraão foi capaz de matar o filho, também ele estava disposto a tirar a vida dos gêmeos. A mãe intervém e o pai trancafia tanto os gêmeos quanto Thomasin e o bode em um mesmo lugar e deixa que eles passem lá a noite.


Em um breve momento de lucidez (um dos poucos depois da segunda metade da história) todos os três perguntam entre si se eles são ou não bruxas. Thomasin diz que não, e é óbvio que os gêmeos não sabem o que responder. 

Ao longo da madrugada, Thomasin vê o pai, na chuva, cortando lenha e rezando (ou estaria falando consigo mesmo?) em que ele assume sua covardia: "Deito-me diante de ti [Deus], um covarde (...). Imploro a ti, meu Cristo, que não amaldiçõe meus cordeiros, meus anjos".


Antes disso, a filha já havia acusado o pai: ele não sabia caçar, e tampouco sabia plantar. A mãe em outra ocasião também já falou que a miséria que assolou a família era culpa dele. William talvez seja um dos personagens-chave para se compreender o sentido desse filme: tal como o Deus puritano, William assumia-se na figura de um pai provedor e protetor. Porém, na prática, era o contrário que acontecia: passivo frente aos desastres da família, nada fazia para solucionar o abandono, a fome ou as doenças que assolavam seus protegidos. Onde estaria Deus, por sua vez, nas ocasiões em que seus devotos o chamaram em vão? Talvez da mesma forma que Deus precisa do Diabo para responsabilizá-lo em função das suas ausências, a família de William precisava de uma bruxa para culpar e responsabilizar pela miséria crescente que os envolvia, dia após dia. Em outras palavras, pode ser que William encarne, no microcosmo da família tradicional puritana, a mesma impotência que o Deus judaico-cristão encarna, no macrocosmo, em função do problema do mal no mundo.


Na mesma noite, a bruxa mais uma vez aparece. Quem a vê dessa vez são os gêmeos trancafiados no pequeno galpão e aqui novamente ela surge na sua representação tradicional: uma velha terrível se alimentando do sangue da cabra doente (a mesma que os gêmeos viram sangrar durante outro dia). Poderíamos perguntar: por que ela também não apareceu aos gêmeos como uma mulher sensual, como apareceu a Caleb? A resposta parece óbvia: a bruxa aparece tal como uma resposta aos medos daqueles que a "veem". Isso quer dizer que se por um lado talvez essa bruxa não existe no sentido real, ontológico, material, ela existe enquanto resposta ao horror, ao medo, e ao pavor frente ao desconhecido. O oculto provoca diferentes respostas e diferentes representações (poderíamos falar em Máscaras novamente) no ser humano. No contexto dessa história, no contexto da cultura religiosa e puritana, a bruxa é uma Máscara que funciona bem. 

Enquanto isso, Katherine parece ter uma visão. Ela acorda e vê seus filhos mortos a esperando. Caleb diz que trouxe um "livro" e convida a mãe para olhar. Ela sorridente, aceita, no mesmo momento em que amamenta o filho perdido. O interessante é que antes disso o garoto diz para a mãe que a verá várias vezes a partir de então e pergunta se isso "a agrada", e ela sem titubear, responde que sim. 

Do que se trata esse momento? Talvez o Diabo fale através do seu filho? Talvez o livro seja o livro do pacto em que a bruxa assina e doa sua alma? De que interessa oferecer algo que "agrade" a mãe em troca? E por que ela aceitaria? 

A resposta pode estar, novamente, no entendimento do demoníaco e do diabólico enquanto metáfora: a existência puritana parece ser tão dolorosa, tão sofrida, tão ausente de prazeres, de alegrias (poderíamos falar de uma vida ausente de vida) que é natural que o prazer e o deleite seja associado ao Diabo e o Diabo à sedução e à “mentira”. Posso estar errado, mas esse talvez seja o único momento em que Katherine esboça um sorriso durante todo o filme. 

De que vale toda a sobriedade, toda a retidão, afinal? O que esse Deus parece dar em troca?


No dia seguinte, com exceção de Thomasin, todos morrem e a maneira como isso ocorre é muito particular, então eu deixo ao leitor e ao espectador do filme a apreciação do momento. Mas já adianto que as falas de Katherine à sua filha Thomasin são particularmente interessantes. Vou pular essa parte e chamar a atenção para uma das últimas cenas do filme:


Esgotada, talvez em estado de choque, sem saber com exatidão o que está acontecendo, ou talvez como aconteceu, Thomasin, exausta, entra na casa, senta à mesa e dorme. É impossível ver essa cena sem sem se lembrar de uma das gravuras mais famosas do pintor espanhol Franciso Goya: “El sueño de la razón produce monstros” que foi pintada no final do século XVIII numa época em que Goya ilustrou séries de monstros, bruxas, fantasmas e demônios.

Depois de perseguido pela Inquisição espanhola e influenciado pelo Iluminismo, Goya em várias obras costuma associar o fantástico e o sobrehumano à ignorância e à superstição. Em outras palavras, quando a razão, ou o pensamento racional adormece, daí surgem os monstros: e curiosamente nessa ilustração vemos corujas e morcegos, animais noturnos e com frequência associados às bruxas (Caleb falou de alguns no seu transe). 

O filme todo se passa sob essa esfera, sob esse clima que pode ser interpretado, portanto, como o “sono” da razão. Mergulhados em uma visão de mundo bastante rígida e repressora, a família de William e Katherine enjaula esses monstros na mesma medida em que os alimenta. O ápice do filme chega no momento em que, absolutamente livre da rigidez puritana, de tudo que a prendia ao seu cotidiano sadio e controlado (porém doente), Thomasin se entrega ao que poderíamos de bruxaria, mas que também poderíamos chamar de liberdade.


“Gostaria de sentir o gosto da manteiga, de ter um lindo vestido, de ver o mundo?” alguém pergunta (vamos supor que seja o Diabo) e continua: “Você gostaria de viver deliciosamente?”. A resposta não poderia ser outra: “sim”. Thomasin não hesita, assim como não hesitou Katherine ao ver os filhos novamente. Como uma criança poderia negar prazeres que sempre lhe foram proibidos, mas proibidos sem que nada substituísse esses anseios? Como uma mãe poderia negar a oportunidade de ver novamente os filhos mortos? O que Deus sempre ofereceu àquela família, afinal, além do abandono, da ausência e do silêncio? Como dizer não ao Diabo (que aqui pode ser absolutamente tudo, tanto uma metáfora para a loucura quanto um símbolo para o encontro de Thomasin consigo mesma)?

Quando Thomasin, não mais enquanto uma jovem puritana, mas agora enquanto "bruxa" finalmente ascende e voa aos céus, seus braços e pernas se misturam aos galhos de uma gigantesca árvore: ela precisou fincar suas raízes até o inferno para que pudesse chegar às alturas do céu. No meio da floresta, essa floresta que ao longo de toda a a narrativa representou o medo, o estranho, o oculto, a bruxa se permite ser devorada pelo monstruoso para que assim possa conhecer o divino. A verdade é que a bruxa nunca troca sua alma imortal pelos prazeres terrenos: o que ela faz é trocar a prisão pela liberdade, o finito pelo infinito, a mentira pela verdade, em suma, a dor pelo prazer (o prazer aqui entendido nas suas mais variadas formas e que se aproxima a ideia grega de hedonê)

O que é a bruxaria afinal (e agora eu me refiro às tradições bruxas filosófico-espirituais de verdade) se não a oportunidade de viver a vida “deliciosamente”, sem as amarras da mentira, da hipocrisia e do puritanismo? O que é uma bruxa, portanto, se não alguém que ao olhar dentro de si encontra tanto a pequenez e a finitude do mundo material quanto a eternidade do universo? Se por um lado o sono da razão tem a capacidade de produzir monstros, e isso certamente é uma verdade, por outro lado, até que ponto a própria razão não é uma Máscara que deve ser estilhaçada para que o Infinito seja descoberto? Até que ponto a loucura não é uma das facetas da realidade? 

5 comentários:

Diana Koré disse...

Maravilhoso! Encantada com a sua visão sobre o filme

Jean Oliveira Quevedo disse...

Eu lembro que eu esperava um terror graúdo desse filme, algo pra me assustar mesmo. Embora isso n tenha acontecido não me frustrei, pq na verdade foi um filme verdadeiramente belo e o Diabo foi belamente representado como um iniciador e libertador.

"Wouldst thou like to live deliciously?" é exatamwnte isso que vc apontou: eu associo diretamente com "conhece-te a ti mesmo".

Emanoel Rodrigues disse...

Que análise maravilhosa! De fato esse é um filme metafórico e que requer um conhecimento prévio dos elementos que o constituem. Creio que por isso ele não tenha sido tão bem recebido pelo público em geral. Curioso, também associei à obra "o sono da razão" quando vi a cena da Thomasin (Anya Taylor-Joy) sentando na mesa após toda aquela situação aterradora. Parabéns Odir pela lucidez da análise histórica e social desse filme incrível.

Nayara S. - Eccentric Beauty Blog disse...

Que texto incrível!

Anônimo disse...

Perfeito!